• 2023-03-26 15:50:54
  • Bruno A.

Depois de 4 meses na estrada, a saudade de algo familiar 🧭

Nova crónica do nosso editor, à medida que se prepara para deixar (temporariamente) o Médio Oriente e inaugurar uma nova etapa do seu périplo. Uma reflexão sobre os pequenos-grandes desconfortos causados por um longo período passado numa realidade cultural e social tão diferente daquela a que estamos habituados.

Já lá vão 4 meses desde que começou esta aventura pelo Médio Oriente. A mudança foi abrupta, mas não chocou. Mesmo antes do arranque, já sabia o que iria encontrar, já conseguia prever as diferenças, as semelhanças e os desafios desta temporada em viagem. O que não sabia é que, 4 meses depois, precisamente aquando do começo do Ramadão (o mês sagrado nos países muçulmanos e altura em que as restrições religiosas se agravam) seria o momento em que começo a sentir saudade de outras andanças.

Tento explorar este sentimento, e apercebo-me de que é difícil. Porque na superfície, a experiência superou as expectativas. A Síria é muito mais progressista que aquilo que poderia esperar; o Líbano é uma mistura quase perfeita de Ocidente e Médio Oriente; a Jordânia oferece a possibilidade de visitar uma das Sete Maravilhas do Mundo; a Arábia Saudita não é fechada ao exterior nem repudia quem vem de fora; o Omã extremamente bonito e relaxado. Todos estes países foram diferentes daquilo que eu pensei que iria encontrar, mas, como em todo o Médio Oriente, não poderia ter sido melhor recebido pelos locais com quem me vou cruzando.

Embora sejamos diferentes, embora vejamos o mundo de formas muito distintas (e distantes), embora tenhamos valores quiçá opostos – fui sempre tratado como sendo bem-vindo. Mais do que cordialidade, fui recebido com curiosidade e um sorriso. À superfície, há mais que nos une, do que aquilo que nos separa. Mas quando um portal se abre e tenho acesso a um vislumbre de algo que me é muito mais familiar – esse portal foi o Dubai – sou inundado de conforto, quando eu nem sabia que estava desconfortável. Como regressares ao teu colchão depois de uns meses valentes fora – não é que os outros colchões me magoassem, mas este… Este assenta-me melhor.

A verdade é que, à superfície, eu não poderia pedir nada mais. Mas algures nas profundezas do ser, nas entranhas e nos ossos, onde carrego a cultura (o que quer que cultura queira dizer) uma parte ínfima de mim começa já a sentir uma desconexão para com tudo à minha volta. Ao fim de 4 meses de Médio Oriente, começo agora a ter saudades de ver as gentes nas ruas (com todas as roupas, de todas as cores e formatos), de ver as esplanadas cheias, um brinde com uma cerveja. Não que me fosse evidente, mas ao fim de 4 meses, sinto falta de ver as liberdades (e libertinagens?) de outros cantos do mundo. E fui eu próprio surpreendido com esta emoção que se foi revelando aos poucos, e com cautela.

Pergunto-me, agora, se o mesmo acontece a quem vai de cá para lá. Será a sensação de alívio semelhante, a quem depois regressa para encontrar um povo mais comedido, mais modesto, mais recatado e religioso? Será que também sentiriam saudades das pequenas nuances, como “que alívio, cabines privadas para as famílias nos restaurantes”?

Por mais que me pareça uma ideia estranha, acredito que sim. Acredito que há partes de nós onde não conseguimos aceder, coisas que carregamos nos ossos e nas entranhas. Desconfortos que só se fazem sentir (por comparação) quando regressamos ao velho colchão moldado ao nosso sono e somos arrebatados pela sensação de estar em “casa”. Felizmente, este capítulo aproxima-se do seu fim e, muito em breve, novas aventuras virão preencher os nossos dias.

Depois do Omã, e de uma quinzena de férias no Irão, seguir-se-á 1 mês e meio numa das regiões do mundo que me são mais queridas, com direito a voltar a duas das minhas cidades favoritas.

É também essa a beleza deste estilo de vida. Quando tantos sítios já foram “casa”, regressar é sempre mais fácil.

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