A Balada de Sai 🇯🇵

  • 03.03.2024 08:01
  • Bruno A.

Na sua mais recente crónica por terras nipónicas, e inspirado pela sua visita a Gion – o principal distrito das gueixas de Quioto – o nosso editor deixa-nos um pequeno conto sobre a infeliz experiência de muitas gueixas durante o período Edo do Japão feudal.

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“Runaway train never going back
Wrong way on a one way track”

Runaway Train, Soul Asylum (1993)

O clã Honda está a caminho e a Ochaya (1) está em alvoroço. Não é para menos, ou não fossem os Honda uma das famílias mais poderosas de todo o Japão, com ligações próximas ao clã do próprio Shogun. Todos os anos, os lordes feudais do país são obrigados a prestar vassalagem ao imperador em Edo (2), fazendo-se à estrada numa longa e aborrecida jornada. Pelo caminho, vão parando em ryokans, casas de chá e onsens (3), na procura de relaxamento, entretenimento e companhia. Um consolo fugaz da árdua jornada. Aguri, a Mãe da Okiya (4), está particularmente agitada. Alinha as gueixas, uma a uma, e dá indicações específicas para o serviço, para os actos de entretenimento e até para as interacções. No centro do grupo, em plano de destaque, está Sai.

Proveniente de uma família pobre e numerosa, Sai nasceu na profunda ruralidade de Kyotango, a oitava de dez irmãos. Quiçá numa visão premonitória, ou na remota esperança de que a filha pudesse escapar do destino que lhe tocou em sorte, a mãe deu-lhe um nome que haveria de corresponder às suas capacidades. Afinal, fosse no canto, na dança ou na pintura, Sai sempre foi apelidada de “Talentosa”. Talvez se pudesse ter ido à escola, esse epíteto também se tivesse aplicado às suas habilidades académicas. Não importa, nunca saberemos.

Talvez por isso, Sai e a família sempre se mostraram extremamente receptivos quando, aos 16 anos, Aguri apareceu pela aldeia, à procura de meninas e mulheres para a sua Okiya (5). Para os pais, esta era uma oportunidade única de enviarem a filha para a grande cidade. Para Sai, a carreira de gueixa era via directa para a emancipação numa sociedade profundamente patriarcal. Quando lhe propuseram a ida para Quioto, não pensou sequer duas vezes. Os sinais, esses, foram aparecendo. Sai sonhava com Gion, o mais reputado de todos os hanimachi (6) da lendária cidade, mas foi prontamente recambiada para Shimabara, um quarteirão intimamente ligado à prostituição.

Apesar disso, os primeiros tempos foram bons. Fascinada pelos templos megalómanos e pelas ruas estreitas de Quioto, Sai sentira-se num admirável mundo novo. Para além disso, e uma vez mais fazendo jus ao nome, Sai era a melhor Maiko (7) da sua Okiya, sendo-lhe constantemente vaticinado um futuro brilhante. Talvez isso a tenha convencido a ficar e a ignorar os primeiros inuendos, os olhares indiscretos e os toques pouco inocentes. Quando, enfim, passou a Geiko (8), Aguri ordenou-lhe que passasse a ser tratada por outro nome. Hiina, que numa tradução livre pode significar algo como “bonequinha” ou “coisa bonita”, seria mais tragável para os clientes, disse-lhe.

Meses mais tarde, as sugestões passaram a ser bem mais coercivas. Sempre que o seu nome era chamado e se deslizava a porta da “Sala 13”, o nome dado por todas as gueixas ao tenebroso quarto onde alguns clientes pediam para passar tempo a sós com as suas anfitriãs, Sai era relembrada por Aguri da sua dívida. Uma dívida moral, pela Mãe da Okiya a ter retirado de um meio pobre e isolado, mas também monetária, uma vez que Sai não tinha pago uma única moeda de cobre (9) pela sua dispendiosa formação.

Desde então, tem-se dedicado incessantemente à sua arte. Talvez se mostrar o seu talento, consiga encontrar um Donna (10) que lhe pague o suficiente para sair dali. Talvez se for a melhor poetisa, a melhor conversadora, a melhor cantora, consiga garantir o lugar numa ochaya de Gion – como as verdadeiras gueixas.. Talvez se for Sai em vez de Hinna, consiga fazer cumprir a profecia da sua mãe. Talvez, talvez, talvez. Talvez não haja melhor oportunidade que a desta noite.

À chegada dos Honda, vem à tona o charme natural de Sai. Conversa, entretém, faz rir. Domina todos os gestos, os técnicos e os sociais, e todos os temas. Num movimento rápido e circular, prepara o mais equilibrado e espumoso chá matcha que o chefe do clã já provou. Depois de jantar, interpreta o papel principal de uma peça de kabuki (11), executando com mestria todas as danças e expressões, tal como lhe ensinaram. Já ao final da noite, pega no seu shamisen, um banjo típico com tom melancólico, e canta uma balada que faz chorar toda a vasta entourage de conselheiros e samurais do clã. Naquela noite, disse quem viu, estávamos perante a mais talentosa gueixa do Japão.

O chefe do clã levanta-se do seu lugar e troca duas palavras com Aguri, que desliza a porta da Sala 13 à medida que chama o nome de Hiina. Sai engole em seco e pousa o shamisen, fechando os olhos à medida que entra no quarto abafado e escuro.

Amanhã tentaremos novamente.

1 – Ochaya: Casas de chá onde as gueixas trabalham
2 – Edo: Designação dada a Tóquio no Período Edo
3 – Onsen: Banhos termais japoneses
4 – Mae da Okiya: Senhora responsável pela gestão da Okiya (normalmente uma antiga gueixa)
5 – Okiya: Residência onde as gueixas vivem
6 – Hanamachi: Comunidade onde as gueixas trabalham e residem
7 – Maiko: Estudante-Aprendiz de Gueixa
8 – Geiko: Nome dado às Gueixas em Kyoto
9 – Moedas de Cobre: Moeda de valor mais baixo durante o período Edo (sistema de pagamentos era feito com moedas de ouro, prata e cobre)
10 – Danna: Homem rico, responsável por patrocinar a formação e os custos de vida de uma gueixa
11 Kabuki: Peça de teatro tradicional japonesa

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