• 2025-04-01 15:50:31
  • Bruno A.

A mulher que não sentia rancor 🇻🇳

An é uma personagem fictícia, mas a sua história é bem real, vivida na pele por milhões de Vietnamitas afectados pela utilização do herbicida Agent Orange por parte das tropas Norte-Americanas durante a guerra. Um registo diferente para a crónica habitual do nosso editor.

“Got in a little hometown jam
So they put a rifle in my hand
Sent me off to a foreign land
To go and kill the yellow man”

Born in the U.S.A., Bruce Springsteen (1984)

O dia começa cedo para An, como começam todos os outros dias. De mãos escuras e calejadas, a pequena senhora de 60 anos prepara-se para cumprir o ritual de sempre na sua casa pequena e mal arejada, situada no topo de um edifício antigo onde no rés-do-chão opera a mercearia dos vizinhos. Antes de passar no mercado mais próximo para comprar os noodles de arroz, as carnes e os legumes de que precisa para mais uma jornada de trabalho, é preciso tratar de toda a rotina de Phúc.

Nascido com mielomeningocele, a forma mais grave de espinha bífida, o homem de 38 anos está totalmente dependente do apoio da sua mãe. Uma missão e uma cruz. Devido ao defeito congénito, não detectado durante a gravidez pela ainda deficiente e altamente danificada infraestrutura do sul do país nos anos 80, Phúc não consegue andar. Para além disso, quis o destino que a abertura e localização do dano no tubo neural tenha ainda causado uma série de outras mazelas. Phúc não tem controlo sobre o intestino ou a bexiga, sofre recorrentemente de convulsões pela acumulação de fluidos no cérebro e – como muitos outros pacientes com este quadro clínico – manifesta graves dificuldades cognitivas ao nível da fala, da memória e do raciocínio.

Todos os dias, An precisa de lavar, vestir, pentear e alimentar Phúc, carregando depois o seu pequeno e massacrado corpo de 40 kg pela escadaria do velho edifício, antes de o deixar na mercearia da vizinha, que olhará por ele até ao final da tarde. A vida, que sempre foi dura, costumava pelo menos ser mais leve e fácil antes da morte do marido, levado cedo demais pelo mesmo cancro que parece ter assolado uma boa parte dos que cresceram naquela aldeia. An sente a sua falta, mas raramente se queixa, fazendo apenas questão de beijar diariamente o retrato do esposo e deixar uma oração junto ao pequeno santuário budista que tem no canto da sala de estar, que ocasionalmente vai honrando com bananas, incensos e pacotinhos de bolachas.

Quando sai finalmente de casa pelas 06h30, com Phúc entregue e os mantimentos comprados, An já está a pé há pelo menos 2 horas. Lá fora, no calor e trânsito infernais que se fazem constantemente sentir em Saigão, a pequena mulher leva a sua motorizada atrelada a uma pequena cozinha improvisada que, como tantas outras, fará paragem num qualquer recanto da maior cidade do Vietname. A vida de An nem sempre foi vivida na azáfama da cidade, tendo nascido e crescido numa pequena aldeia nos arredores de Biên Hoa. No entanto, e à semelhança de quase todos os vizinhos, mudou-se ainda muito jovem com o então namorado para Ho Chi Minh City (ou Saigão), já que os solos outrora ricos e férteis tinham deixado de prosperar desde o final da década de 60, atirando para a miséria todos os que viviam da agricultura e desencadeando um verdadeiro êxodo rural. Apesar de tudo, An considera-se sortuda por ter o seu poiso habitual há décadas, ali bem junto à Universidade de Ciências Sociais e Humanidades de HCMC, em pleno District 1. No coração de Saigão, An consegue servir um diverso e interessante mix de estudantes e trabalhadores, vendendo deliciosas e generosas tijelas de Bun Cha por uns irrisórios 50.000 dong. É pouco, mas ajuda a pagar as contas, a comprar os medicamentos e a meter comida na mesa.

Ocasionalmente, lá aparece um turista mais “destemido”, ansioso por gravar o seu vídeo para as redes sociais enquanto almoça no meio dos locais. Os fregueses habituais rolam os olhos, mas An acha-lhes uma certa piada. Holandeses, Franceses, Alemães, Americanos. O cromo de hoje vem da Terra do Tio Sam, e se o sotaque e o tom de bonacheirão não fossem suficientes para denunciá-lo, a forma leve e descomplexada como faz conversa de circunstância não deixa dúvidas. Depois de pedir uma tigela e deixar outros 50.000 dong extra de gorjeta, Saxon apresenta-se e fica à conversa com a vendedora. An não se sente confortável a falar inglês, mas orgulha-se de perceber quase tudo. Sem que nunca lhe seja perguntado nada, Saxon partilha que se mudou recentemente para Saigão, movido pelas entusiasmantes histórias do pai Frank, um veterano da Guerra do Vietname, falecido no ano anterior. An olha atentamente para Saxon, tentando associar rapidamente cada palavra que lhe sai da boca à sua tradução Vietnamita. “Camaradagem”, “bonito”, “exótico”. “Perigo”, “trauma”, “terapia”. “Seguir ordens”. “Suicídio”.

Entre as palavras e vocabulário que lhe vão escapando, An não pode deixar de reparar no curioso facto de que, com excepção dos olhos redondos e claros, Saxon e Phúc partilham muitos dos mesmos traços. Os cabelos lisos e escuros, as covinhas nas bochechas quando se riem, a altura mais ou menos semelhante… se ao menos o seu filho se conseguisse pôr de pé. An continua a escutar atentamente à medida que vai servindo e fazendo o troco a outros clientes, intervindo com a ocasional palavra de assentimento e interjeição. Depois de alguns minutos de conversa, Saxon senta-se finalmente num dos bancos de plástico e devora a iguaria numa questão de minutos, antes de elogiar o sabor e se despedir de An, entrando num táxi e desaparecendo por entre a neblina de fumos de escape que paira eternamente sobre Saigão.

Depois de uma longa jornada, An regressa a casa, respirando fundo à medida que sente o alívio da ventoinha bater-lhe nas costas. Aqueles são os únicos 5 minutos de paz a que se permite diariamente, antes de descer novamente para ir buscar Phúc. Tira os sapatos, beija o retrato do marido e ajoelha-se de frente para o seu altar budista, com as plantas dos pés a apontar na direcção oposta. Pede por Phúc, pela essência do cônjuge e pela memória dos pais, há muito desaparecidos. Abre a carteira, retira a gorjeta de 50.000 dong oferecida por Saxon, e deposita a nota no colo de Buddah, deixando uma prece pela alma atormentada de Frank.

Esgotaram-se os 5 minutos. An levanta-se lentamente, apoiando-se na beira do sofá à medida que solta um esgar de esforço. Aproximando-se da porta, encontra os chinelos com a ajuda da parca luz que entra pela única janela da habitação, antes de descer a escadaria húmida e escura que dá acesso directo às portas traseiras da mercearia. Abateu-se a noite, e amanhã é outro dia.

NOTA: Entre 1962 e 1971, estima-se que as tropas Norte-Americanas tenham largado mais de 70.000.000 de litros de Agent Orange sobre várias áreas do Vietname. Embora o objectivo inicial tenha passado por destruir a fertilidade dos solos, impedindo assim a organização de acções de guerrilha, a verdade é que este composto/herbicida estava pejado de dioxinas e carcinógenos. De acordo com estimativas oficiais, 4.8 milhões de Vietnamitas tiveram contacto directo com Agent Orange, vendo assim disparar a probabilidade de desenvolverem cancros e outros problemas graves de saúde. Para além disso, o herbicida tinha impactos genéticos no sistema nervoso central das vítimas, levando a que as mulheres afectadas – mesmo décadas depois – tivessem probabilidades muito maiores de desenvolverem deficiências cognitivas e deformações físicas durante a gestação. A Cruz Vermelha indica que quase 1 milhão de Vietnamitas são portadores de deficiência devido a contaminação por Agent Orange. Biên Hoa foi um dos locais mais atingidos.

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