Crónica: Aqueles a quem foi roubada a identidade 🇦🇺
Após visitar uma vila histórica colonial e um local arqueológico nativo, o nosso editor não pôde deixar de reparar nas diferenças de preservação e promoção dos espaços, apesar de um local ser potencialmente 7 vezes mais antigo do que outro. Uma descriminação cultural que se expande às áreas económicas e sociais, e que faz dos aborígenes um corpo estranho na sua própria terra.
“Und wer nicht tanzen will am Schluss
Weiß noch nicht, dass er tanzen muss”
Amerika, Rammstein (2004)
Viajar na Austrália com um bebé obriga a um planeamento diferente do habitual. Sim, alugar uma caravana e percorrer o país de lés-a-lés seria incrível, mas as longas jornadas na estrada seriam sempre incompatíveis com o cumprimento de um turno de trabalho e a rotina de um minorquinha de 15 meses. Ainda assim, e para uma pequena amostra das lendárias roadtrips Australianas, lá me decidi a alugar um carro em Sydney e a aproveitar duas folgas para explorar alguns destinos populares na região de New South Wales. Pelo caminho, e à semelhança do que já tinha visto um pouco por todo o país, vão surgindo placas e avisos de respeito pelos Aborígenes, tentando assim honrar os povos ancestrais da Austrália cuja população e cultura praticamente desapareceram com a chegada dos colonizadores Britânicos.
“We acknowledge the traditional owners of this land, the Gundungurra, and pay our respects to their Elders past, present and emerging”.
Mensagens oficiais como esta estão presentes nas estradas, em museus, em instituições públicas e privadas, publicidades e até mesmo em vinhetas e reclames antes do início de certos programas de televisão, mudando apenas o nome da tribo que lá costumava habitar. Um esforço honorável de uma nação que, não podendo mudar o passado, tenta pelo menos reconhecer os erros da sua História. No entanto, quanto mais tempo passo aqui, mais me apercebo que este exibicionismo é inócuo, já que as estatísticas mostram que o povo Aborígene que ainda vive na Austrália, e que constitui apenas 3.8% da população, está sobre-representado em estatísticas pouco desejáveis, como a pobreza, o desemprego, o suicídio, o analfabetismo, a mortalidade infantil ou os índices de alcoolismo.
A solução, já se sabe, é difícil de conseguir. Afinal, qual é a linha que separa a responsabilidade individual das externalidades negativas e descriminação trazidas pelo colonialismo? É ético e legítimo ter medidas sociais exclusivamente de apoio a uma comunidade? O país já conseguiu estimar e contabilizar de que forma as comunidades nativas foram prejudicadas por uma invasão exterior? É uma discussão que vale a pena ter, mas relativamente à qual cada vez menos Australianos não-aborígenes parecem ter paciência. A título de exemplo, a população chumbou um referendo em 2023 que tinha como objectivo emendar a Constituição da Austrália e reconhecer formalmente os povos aborígenes, criando um órgão legal composto por nativos e que teria a capacidade de propor legislação relacionada com as comunidades aborígenes para votação no Parlamento. A iniciativa foi um enorme falhanço, perdendo por mais de 3 milhões de votos e sendo rejeitada em todos os estados do país, com excepção da capital Canberra.
No fundo, de nada valem tabuletas e anúncios se depois não existir uma verdadeira responsabilização pela forma como as comunidades que o país tenta honrar foram negativamente afectadas pela chegada dos colonos. No fundo, seria como se alguém mais forte chegasse a tua casa, te confinasse no quarto mais pequeno, frio e húmido, se recusasse a deixar-te usar as outras divisões e depois exibisse uma placa à porta a dizer que te honra enquanto dono histórico da propriedade. Não faz grande sentido. Voltando à minha mini road trip, sou lembrado desta dicotomia Australiana ao longo do percurso. Verdade seja dita, esta é uma das poucas manchas numa sociedade tão próxima da perfeição quanto possível – mas não é por isso que não merece atenção.

A minha primeira paragem tem lugar em Berrima, votada em 2021 como a vilazinha mais bonita da Austrália. Situada nas Southern Highlands, numa região montanhosa, Berrima tem a maior colecção de edifícios da Era Georgiana de todo o país, com quase todas as casas, igrejas, mansões e outras construções – como um tribunal ou uma antiga prisão – erigidas no século XIX. É um sítio pequenino, mas impecavelmente mantido, com bastante turismo interno. A decoração faz pandã com a popularidade do local, repleto de cafezinhos da pinta e albergues históricos com stands de souvenirs cuidadosamente montados para chamar a atenção de quem passa. Historicamente, Berrima enriqueceu dada sua localização premium ao longo de várias rotas comerciais que ligavam Sydney a Melbourne e a diferentes pontos do interior de New South Wales, formando por isso um ponto de paragem ideal para viajantes e mercadores. Como resultado, a localidade desenvolveu uma economia de serviços numa era onde ainda imperavam os sectores da agricultura e da indústria, ostentando o estabelecimento de hospedagem (inn) mais antigo do país e uma série de pubs dessa era.

É um sítio adorável e super pequenino, que podes percorrer confortavelmente em apenas 1 hora ou 90 minutos, mas salta à vista o esforço feito para preservar e cuidar da arquitectura, das ruas e de todo o espaço público. Entende-se, já que Berrima é um legado histórico e cultural do país, e um dos poucos exemplos pristinos de uma vila de colonos com quase 200 anos.

De volta a Sydney, e depois de uma boa noite de sono, o dia seguinte reserva-me outra day trip – desta feita até às famosas Blue Mountains! O parque nacional é um dos mais populares da Austrália, famoso pelos trilhos, cascatas, miradouros e vilazinhas históricas, mas é também o lar ancestral e sagrado de vários povos Aborígenes, com alguns resquícios arqueológicos da sua presença na área. Tendo já tido a oportunidade de visitar um sítio histórico colonial, estava curioso em ver agora uma atracção cultural nativa.
Consequência do seu estilo de vida tribal e nómada que olhava a Natureza de forma espiritual, vivendo em comunidades pequenas e subsistindo da caça e de actividades recolectoras, os vestígios arqueológicos aborígenes são diferentes daqueles que encontras ao redor do mundo. Ao passo que Romanos, Bizantinos, Fenícios, Cartagineses, Persas, Chineses, Maias, Aztecas, Incas ou Khmers (só para mencionar alguns impérios) construíam cidades cujas ruínas subsistem até aos dias de hoje, os Aborígenes da Austrália viviam num modelo de sociedade distinto, dividido em centenas de diferentes tribos e dialectos, e que talvez encontre apenas paralelo em algumas regiões de África e nas ilhas do Pacífico. Como tal, os vestígios arqueológicos aborígenes dizem muitas vezes respeito a ferramentas e utensílios, pequenas ruínas de aldeias, arte rupestre ou túmulos e cemitérios. Menos entusiasmante em teoria, mas nem por isso na prática.
A informação é relativamente escassa e pouco organizada, mas após alguma pesquisa intensiva, lá dou com um sítio chamado Maiyingu Marragu, promovido em inglês como a Blackfellows Hand Cave. Situado já uns bons 40 minutos fora das paragens mais turísticas das Blue Mountains, conduzo durante quase 3 horas só para dar com o sítio. À chegada, o cenário é desolador. Umas mesas de piquenique vazias, uma placa já esbatida pela luz do sol com o nome do lugar e um corredor estreito de gravilha e terra batida pelo qual não arrisco levar o carro alugado.

Caminho durante cerca de 900 metros pelo barulho quase ensurdecedor dos insectos dos bushes Australianos, ao mesmo tempo que enxoto as moscas mais persistentes que já encontrei. No final da via, a estrada desaparece pelo arvoredo e há um ligeiro desvio à direita que está bloqueado por um portão e uma barreira improvisada feita com um tronco de árvore. Limito-me a levantar as pernas uma de cada vez sobre a “barreira” e entro no espaço aparentemente interdito. Não há qualquer sinalização complementar e por isso começo a achar que talvez não vá conseguir encontrar o sítio correcto, mas numa última tentativa lá decido subir uma pequena escadaria rústica com ramos e troncos mais pequenos a servir de degraus. Lá em cima, um rochedo enorme está pousado sobre a colina e rodeado de pedras mais pequenas que parecem ter-se desprendido e caído do maciço maior. Um bom alerta que me diz que o melhor é sair dali o mais rapidamente possível. À esquerda, parece haver um trilho muito estreito por uns arbustos, largo o suficiente para caminhar, mas não sem que os braços e ombros batam nos ramos e folhas. De bebé ao colo, não sei se me sinta um intrépido explorador ou o pai mais irresponsável do mundo.


E eis que, quando os arbustos desaparecem e o caminho se abre, dou finalmente de caras com aquilo que procurava. Ali, escondido no arvoredo e sem qualquer sinalização adicional, ergue-se repentinamente uma parede rochosa com uns bons 30 metros de altura, e cujo topo se arredonda por cima de nós como um coberto natural. Para além do barulho dos insectos, é também possível ouvir um curso de água escorrer e pingar por uma secção da parede, e que provavelmente ajuda a explicar o porquê dos aborígenes verem este local como sagrado. Seja aqui ou em qualquer outra parte do mundo, água sempre foi sinónimo de vida.

Caminho junto à imponente superfície analisando cuidadosamente cada metro quadrado da parede, até que encontro, enfim, o que procurava. Sem nenhuma protecção ou aviso, surgem as pinturas e formas de dezenas de mãos negras, um tesouro arqueológico sob a forma de pintura rupestre. O que significam? Quem as fez? Com que propósito? Infelizmente, as cicatrizes da colonização não se fazem sentir apenas nos aspectos económicos e sociais de quem foi subjugado, mas também na sua herança histórica e cultural. De uma forma muito resumida: é difícil saber! Pensa-se que este sítio sagrado poderia ser um templo ou um local de assembleia onde se reuniam representantes das tribos das redondezas, mas não há como ter certezas. Mesmo a idade das pinturas não é consensual, já que tanto podem ter 500 como 1500 anos. Numa altura em que tanto parece estar em voga a idealização da cultura e da história, estes e outros povos nativos do sul global foram roubados da sua terra, tradições, legado e de tantos outros componentes que, juntos, formam uma identidade colectiva.

Saio completamente abismado com o que vi, e extremamente confuso pelo facto de sermos literalmente as únicas pessoas naquele lugar. Em qualquer país da Europa, uma atracção daquelas viria sempre acompanhada de milhares de turistas diários de câmara e telemóvel em punho. Talvez até fosse melhor assim, se houvesse pelo menos o cuidado de proteger as pinturas rupestres, mas a verdade é que não existe protecção ou vigilância. Qualquer pessoa pode chegar aqui e tocar nas pinturas, rabiscar, riscar, fotografar com flash ou cometer qualquer outro acto ilícito que as danifique e/ou conspurque. Um descuido que seria desculpável em qualquer país de recursos parcos, mas não na riquíssima e idílica Austrália.
Penso no dia anterior, em Berrima, e o contraste não podia ser maior. De um lado, uma vila de menos de 200 anos preservada com toda a pompa e circunstância. Do outro, um local arqueológico que pode ter até 1500 anos deixado aparentemente ao abandono. De um lado, o poderio estrutural do comércio. Do outro, a vulnerabilidade espiritual das raízes. De um lado, o tijolo, o ferro e a telha. Do outro, a Natureza. De um lado, os colonos. Do outro os nativos. De um lado, “nós”. Do outro, “eles”.
Se a Austrália quer verdadeiramente reparar o passado, e na dificuldade de fazer passar legislação que ajude os aborígenes nos ramos económicos e sociais, que pelo menos ajude a honrar e manter os poucos locais arqueológicos e culturais nativos. Até lá, os placares e mensagens harmoniosas até podem soar bem, mas são apenas para (descendente de) inglês ver.
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