Europa afasta crise de fornecimento no jet fuel e não prevê perturbações graves nos voos deste Verão ⛽✈️
A Europa deverá evitar uma crise de fornecimento de jet fuel no Verão, afastando por agora o cenário de fortes perturbações nos voos que há poucas semanas parecia provável. A mudança deve-se sobretudo à subida dos preços, que incentivou refinarias e traders a redirecionarem cargas de combustível para o continente, compensando mais depressa do que o esperado a quebra nas entregas provenientes do Golfo.
“Os nossos fornecedores de combustível confirmaram-nos, ainda esta semana, que não esperam qualquer interrupção no abastecimento até meados de julho, e a situação continua a melhorar”, disse o presidente executivo da Ryanair, Michael O’Leary, na segunda-feira, citado pelo POLITICO.
O responsável da companhia aérea já tinha afirmado estar confiante de que o aumento das importações de combustível provenientes da África Ocidental, dos EUA e da Noruega está a compensar a redução dos volumes vindos do Médio Oriente, causada pelo bloqueio da maior parte do tráfego de petroleiros através do Estreito de Ormuz.
Em Istambul, o responsável comercial do aeroporto, Server Aydin, explicou ao Financial Times que o hub está bem posicionado para o Verão, mesmo com o aumento do tráfego de ligação após o encerramento dos principais centros do Golfo. Segundo Aydin, a segurança no abastecimento deve-se ao facto de o aeroporto trabalhar com vários fornecedores diferentes.
Também a British Airways garantiu, no início deste mês, que dispõe de fornecedores suficientes para cobrir toda a sua programação de Verão. A Air France, por sua vez, disse que os seus aeroportos têm reservas suficientes para vários meses.
Já o presidente executivo da Wizz Air, József Váradi, destacou que a subida dos preços do jet fuel, embora penalizadora, acabou por ajudar a Europa a adaptar-se, à medida que refinarias nos EUA e na Nigéria aumentaram as exportações para a região.
Esse tom mais otimista contrasta com o aviso emitido há cerca de um mês por Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), que tinha alertado para a possibilidade de os países europeus enfrentarem escassez de jet fuel até ao final de maio.
No entanto, o mais recente relatório mensal da AIE sobre o mercado petrolífero, divulgado no início deste mês, assinala já um forte aumento da produção de jet fuel nos EUA e na África Ocidental.
“Os fornecedores alternativos avançaram para colmatar a lacuna”, afirmou a AIE. “Os Estados Unidos passaram de importador líquido em abril de 2025 para exportador líquido no início de 2026, com a forte atividade das refinarias a impulsionar a produção de jet fuel para máximos de vários anos.”
Reforço da produção europeia

As refinarias europeias também aumentaram a produção. A espanhola Repsol indicou que planeia elevar a produção de jet fuel entre 15% e 20% e garantiu que “fará tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a proteger setores-chave como o turismo, uma atividade de grande importância para a economia espanhola”.
A GALP também está a reforçar a produção. A empresa portuguesa afirmou que está a “maximizar” a produção de jet fuel e garantiu que “não se preveem perturbações no abastecimento nos próximos meses”, acrescentando que o consumo interno deverá ficar “totalmente coberto” com o aumento da produção e com contratos de importação já assegurados, segundo o Financial Times.
A AIE, porém, sublinhou que o aumento das exportações e da produção de jet fuel ainda não substituiu totalmente os fluxos anteriores à guerra através do Estreito de Ormuz.
“Sem uma resolução a curto prazo da situação no Ormuz, o reequilíbrio vai demorar”, alertou a agência.
Preços subiram e depois recuaram
Nas primeiras semanas da guerra entre os EUA e Israel contra o Irão, e da retaliação de Teerão com o bloqueio da maior parte da navegação pelo estreito, os preços do jet fuel subiram para mais de 200 dólares por barril, mais do dobro do valor anterior ao conflito. Nos últimos tempos, porém, os preços recuaram para cerca de 162 dólares por barril.
A subida inicial dos preços e os receios de escassez levaram algumas companhias aéreas, como a SAS e a Lufthansa, a cortar milhares de voos de curto curso que deixaram de ser rentáveis.
A Eurocontrol reviu recentemente em baixa a sua previsão para o Verão, projetando um crescimento do tráfego entre 2% e 2,5% face ao mesmo período do ano passado, abaixo dos 3,3% estimados anteriormente este ano.

A Comissão Europeia mantém também um otimismo cauteloso. O departamento da energia afirmou que “não existem, neste momento, carências de combustível na UE”, mas advertiu que “podem surgir restrições regionais de abastecimento nas próximas semanas se o bloqueio do fornecimento de petróleo através do Estreito de Ormuz não for resolvido, sendo o jet fuel a principal preocupação”.
O executivo europeu acrescentou que as reservas estratégicas de combustível geridas pelos Estados-membros “podem ser libertadas se necessário”, embora qualquer decisão desse tipo tenha de ser acompanhada por medidas de poupança para que as reservas durem o máximo possível.
Situação em Portugal
No caso português, o perfil de importação de petróleo ajuda a perceber por que razão o risco de escassez direta é mais limitado do que noutros mercados europeus. Segundo o mais recente relatório da Direção-Geral de Energia e Geologia, Portugal importou 10,5 milhões de toneladas de petróleo bruto em 2024, num valor total de seis mil milhões de euros, o que representa uma subida de 14,3% em quantidade e de 13,5% em valor face a 2023.
O principal fornecedor de petróleo bruto a Portugal foi o Brasil, com 44,3% do total das importações, seguido pela Argélia, com 17,8%, mostrando que o país não depende sobretudo do Médio Oriente para alimentar a sua refinação.

Isso não elimina o impacto da volatilidade internacional nos preços, mas reduz a exposição direta de Portugal a eventuais ruturas físicas de abastecimento vindas do Golfo.
A posição da Galp reforça essa leitura. Segundo a Reuters, a empresa assegura cerca de 80% do jet fuel consumido nos aeroportos portugueses através da sua produção na refinaria de Sines e não antecipa disrupções de abastecimento nos próximos meses.
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