Hiroshima – Quem escreve a história é quem ganha a guerra 🇯🇵

  • 21.03.2024 16:30
  • Bruno A.

Para o final do seu périplo pelo Japão, o nosso editor passa em Hiroshima, palco da utilização da primeira bomba atómica de sempre num conflito bélico. Já muito foi dito e escrito sobre este episódio, mas porque não é a morte de 200.000 pessoas universalmente aceite como um crime de guerra? Um lembrete de que na guerra, como na vida, a moralidade raramente é a preto e branco.

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“So let mercy come and wash away
What I’ve done”

What I’ve Done, Linkin Park (2007)

O dia amanheceu triste em Hiroshima. O céu, cinzento e chuvoso, é cenário mais que apropriado para os planos que tenho. Não há volta a dar. Não importa o que Hiroshima (e as redondezas) tenha para oferecer, a cidade será sempre sinónimo do que aconteceu naquela fatídica manhã de 6 de Agosto de 1945, quando a Força Aérea Norte-Americana largou uma bomba atómica sobre a cidade, matando mais de 100.000 pessoas. Três dias depois, nova bomba haveria de cair sobre Nagasaki, causando outras 80.000 vítimas mortais.

Sinceramente, há poucos sítios com uma aura tão específica. Uma mística que combina o melhor do “dark tourism” com o pior que a Humanidade tem para oferecer, a uma escala sem precedentes. Talvez os campos de concentração nazis de Auschwitz-Birkenau, que dispensam apresentações, ou o Museu Castelo Cape Coast, no Gana, um antigo porto de escravos onde a “mercadoria” era expedida para as Américas e para as Caraíbas, tenham um impacto semelhante. No que toca a Hiroshima, a história já foi de tal forma revisitada, em filmes, livros, séries e nas salas de aula, que é inevitável ser invadido pela sensação que nos faz indagar e murmurar em voz alta um “nem acredito que estou aqui”.

À primeira vista, Hiroshima parece uma cidade como qualquer outra do Japão. Grande, desenvolvida, com muito movimento. Mas à medida que nos aproximamos do centro, amplamente ocupado por um gigantesco parque recheado de monumentos, tributos e memoriais, lentamente lá nos vamos apercebendo que a cicatriz continua presente. Particularmente junto ao Rio Motoyasu, é impossível não reparar no edifício em ruínas que repousa junto à margem. Conhecido como Atomic Bomb Dome, o prédio dizia respeito ao Hall de Promoção Industrial da Prefeitura de Hiroshima, e ficou marcado nos manuais de história por ser o epicentro da explosão. Foi precisamente sobre este edifício, a uma altura de cerca de 600 metros, que a bomba atómica jocosamente apelidada de “Little Boy” foi detonada. Curiosamente, uma vez que a força da explosão se propaga como uma nuvem em forma de cogumelo, o edifício foi um dos poucos que não sucumbiu à violência do ataque, pese embora todos os seus ocupantes tenham tido morte imediata. Contudo, num raio de 2 km deste edifício, tudo o que estava no caminho ficou reduzido a cinzas, escombros e entulho, restando o hall como a derradeira prova de uma cidade que, num espaço de meros segundos, haveria de mudar para sempre.

É uma extraordinária dissonância cognitiva. Em redor, e mesmo num dia de chuva como este, o parque parece tão normal como outro qualquer. Silencioso, sim, mas verdejante, organizado e bem preservado. Mas fixando o olhar no Dome, que a cidade optou por manter como memorial, o silêncio do parque torna-se pesado, e é momentaneamente possível imaginar as nuvens de fumo, os gritos de dor e os olhares confusos, ao mesmo tempo que o cheiro a queimado, de borracha e de pele, nos invade os sentidos. A Hiroshima actual, reduzida a nada há apenas 80 anos, é também uma grande prova do estoicismo e resiliência da nação nipónica, traços que ainda hoje moldam uma sociedade onde a coesão colectiva se sobrepõe às necessidades individuais (mas isso seria conversa para outro dia).

No interior do parque, é também obrigatório visitar o Museu do Memorial da Paz de Hiroshima. Talvez devido ao seu nome leve e de tom conciliador, confesso que não estava – de todo – preparado para a violência explícita da exposição. Aqui, nada fica por dizer ou mostrar. Num revoltante par de horas, pude ver vídeos e imagens que atestam o resultado de um crime que ainda poucos ousam classificar desta forma. Pude ler histórias de mortos e vivos (e daqueles que ficaram para sempre no limbo), conhecer as suas famílias, os seus interesses, os seus sonhos. Assistir à forma como o seu mundo ficou virado do avesso no premir de um botão. Até hoje, os bombardeamentos de Hirosima e Nagasaki são ainda os únicos exemplos de utilização de armas nucleares de destruição em massa num conflito. 8 décadas mais tarde, nenhuma outra nação, seja ela controlada por ditadores ou democratas, déspotas ou humanistas, tiranos ou liberais, se atreveu a utilizar uma arma semelhante. Mas então, porquê aqui?

Depois da rendição da Alemanha Nazi e de Mussolini ter sido pendurado de cabeça para baixo na Piazzale Loreto de Milão, o Japão passou a ser a única nação do Eixo que se recusava a admitir derrota. No seguimento da Conferência de Potsdam, os EUA deixaram o aviso. Ou o Japão se rendia de forma incondicional, ou o país enfrentaria a destruição total. O ultimato foi ignorado pelo Imperador do Japão, tendo as forças armadas dos ianques cumprido a sua promessa e detonado a Little Boy sobre Hiroshima. Depois de novo alerta, ignorado uma vez mais pelo Imperador nipónico, os EUA não foram em modas, largando a Fat Man sobre Nagasaki. 9 dias depois do primeiro bombardeamento, o Imperador Hirohito lá admitiu a derrota, formalmente assinada a 2 de Setembro de 1945.

Escrito assim, de uma forma fria e puramente factual, a verdade é que as bombas atómicas puseram fim ao maior conflito da história da Humanidade, e que, não fosse a teimosia do Imperador, o mesmo fim poderia ter sido alcançado sem este caminho de destruição. No entanto, o mundo real não é uma simulação e as vidas valem mais que maquetes e mapas exibidos num centro de comando. Para obter a rendição nipónica, mais de 200.000 vidas foram ceifadas, e milhões de japoneses tiveram que lidar com traumas geracionais e gravíssimos problemas de saúde causados pela radiação. Mas estas pessoas não eram simples soldadinhos de chumbo. Tinham rostos e sonhos, e é por isso que a visita a este museu é um verdadeiro soco no estômago. Corredor após corredor, fotografia após fotografia, história após história, e é impossível sair sem indagar como é que este episódio não é universalmente relembrado como um dos maiores crimes de guerra que a Humanidade já viu.

Entre 2013 e 2018, o ISIS matou mais de 30.000 pessoas. Durante o seu regime aterrador, estima-se que quase 300.000 iraquianos e curdos tenham sucumbido às mãos de Saddam. Idi Amin, do Uganda, foi responsável por um número semelhante de mortos nos seus 8 anos de governo. As manobras militares de Mussolini (outra vez ele), estima-se terem levado à morte de 400.000 soldados. Gaddafi, da Líbia, liderou o país em três guerras externas e uma civil, que causaram cerca de 30.000 mortos. Omar al-Bashir, histórico ditador do Sudão, supervisionou alguns dos maiores massacres no Darfur, com uma contagem de quase 300.000 mortos. Pinochet, na sua obsessão por parar a comunismo no Chile, liquidou mais de 3000 dissidentes políticos. Em comum, está o facto de todos estes homens serem lembrados (justamente) como tiranos sanguinários. Então, porque não é Harry S. Truman, o presidente responsável pela detonação da bomba atómica, relembrado sob a mesma luz? Afinal e numa simples ordem, foi responsável directo por cerca de 200.000 vítimas mortais, sem contabilizar os mortos directamente causados pelo seu envolvimento directo na Guerra da Coreia.

Essa questão torna-se ainda mais premente numa das últimas salas do museu, onde é admitida a possibilidade de que a utilização da bomba atómica tenha sido uma forma de acelerar a rendição nipónica, com o único objectivo de que o país não caísse sob a esfera de influência soviética se a guerra seguisse o seu rumo natural e o Japão saísse derrotado pelo isolamento e pelo cansaço, com um número muito mais reduzido de baixas civis e militares.

Hoje chove em Hiroshima e a cidade está cinzenta. Como cinzenta era a paisagem de escombros. Como cinzentas são as imagens do seu museu. Como cinzenta é a ambiguidade do mais marcante dos seus capítulos. No final, uma certeza tão antiga quanto o Homem: “Quem escreve a história é quem ganha a guerra”.

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