• 2025-10-26 16:00:21
  • Bruno A.

Já é amanhã em Hong Kong 🇭🇰

Uma crónica que marca o ponto de passagem entre a última aventura do nosso editor, terminada em Maio, e o início da próxima, principiada esta semana. Uma texto sobre o Fear of Missing Out (FOMO) e sobre como os mais pequenos detalhes podem ter gigantescas consequências nas nossas vidas.

“Ao teu pé frio, encosto o meu quentinho,
E adormecendo lá digo baixinho,
Eu vivia tudo novamente”

Algo Estranho Acontece, António Zambujo (2012)

Tinha esta crónica na gaveta há meses.

Acontece que Hong Kong era especial bem antes de lá chegar. Aliás, agora que já cheguei, vi e parti, Hong Kong era mais especial antes de a ter visitado. Embora inicialmente aplicado à meteorologia, o conceito do Efeito-Borboleta encontrou raiz em quase todos os quadrantes da ciência e sociedade. Edward Lorenz alegava que, partindo da teoria do caos, o universo meteorológico seria de tal modo imprevisível que qualquer micro-acção ou pequena alteração no curso de um acontecimento seria capaz alterar todas as condições iniciais e alterar o futuro. De forma emblemática, deu como exemplo que o bater de asas de uma borboleta poderia causar um tufão semanas mais tarde, no outro lado do mundo, cunhando assim o termo.

Bom, o meu Efeito-Borboleta pessoal data de 1 de Janeiro de 2019. Nesse dia frio e chuvoso, ressaca de uma Passagem de Ano bem pesada, deitámo-nos no sofá e afundámos sob um cobertor felpudo a decidir que filme ver. Curiosamente, costumo ser bastante selectivo no que toca a filmes e séries – ao ponto de chegar a roçar o snobismo, confesso! Nesse dia, por nenhuma razão aparente, escolhi uma película totalmente aleatória, desconhecida e sem grandes reviews, provavelmente atraído pelo cenário da trama: “Already Tomorrow in Hong Kong”. Um romance melancólico, passado numa das grandes metrópoles da Ásia, conta a história de encontros e desencontros dos dois protagonistas. Ele, trabalhador do sector financeiro; e Ela, designer de brinquedos para crianças.

O filme não é propriamente um clássico, mas é decente o suficiente para entreter 90 minutos. Ainda assim, durante o filme, o protagonista confessa à sua nova amiga que, embora a sua vida tenha conforto e estabilidade, sempre teve o sonho de se despedir para viajar pelo mundo e tornar-se escritor. Não me recordo sequer de a revelação ter particular importância para o filme, mas para nós, que estávamos ali a assistir, foi a confirmação aleatória de que tínhamos que avançar com algo sobre o qual já tínhamos conversado e que andávamos continuamente a adiar. Ali, naquele momento, ficou decidida a resolução de Ano Novo: passar o ano de 2019 a poupar tudo aquilo que conseguíssemos, para podermos passar todo o ano de 2020 num mochilão pela Ásia.

Escusado será dizer, esse sonho nunca se concretizou. Chegados ao final de um ano de 2019 a viver como eremitas, tínhamos o dinheiro, despedimo-nos dos nossos empregos, deixámos o apartamento que tínhamos encontrado a um preço bastante simpático e fizemo-nos à estrada… para acabarmos recambiados do Uzbequistão passadas 4 semanas, quando a COVID fechou as fronteiras do país. Embora o início tenha sido trémulo, a verdade é que essa acabou por se revelar a melhor decisão da minha vida, abrindo-me portas às maravilhas do trabalho remoto, e permitindo-me passar alguns anos a viajar durante períodos longos, ganhando dinheiro ao mesmo tempo de que desfruto. Muito haveria para dizer acerca das viagens feitas desde 2020 para cá, mas no fundo o que importa é o quanto esse desvio acabou por ter repercussões dramáticas (pela positiva) na minha vida e na vida da minha família. E tudo começou ali, com uma noite fria de Janeiro a ver um romance asiático aleatório.

Por todas estas razões, passei vários anos a sentir uma espécie de dívida de gratidão para com Hong Kong, esperando o momento certo para poder lá passar. E sem surpresa, chegar ao antigo protectorado Britânico foi catártico. Não que seja propriamente bonita, encantadora ou hospitaleira, mas é uma cidade com um significado especial para mim e para milhões de outras pessoas. Curiosamente, não falta material para escrever sobre este sítio. Se acredito que as minhas melhores crónicas de viagens costumam sair de um lugar de dor, conflito e melancolia, poderia facilmente escrever uma dezena de textos sobre Hong Kong, tais são os problemas que afectam a cidade e a sua população. A seu tempo, talvez as publique.

A visita a Hong Kong surge num contexto extremamente específico, na recta final da nossa primeira viagem longa com o Oliver – que tinha apenas 7 meses quando saímos de Portugal – e já com o peso de mais de 70 dias na estrada. Estamos cansados, tristes e desiludidos. De tal forma, que tomámos a drástica medida de regressar mais cedo a casa quando finalmente percebemos que não conseguíamos acompanhar o ritmo a que estávamos acostumados. Hong Kong seria a última paragem nessa viagem, o que curiosamente até me faz sentir que este é um encerrar de ciclo.

Esta viagem foi tudo aquilo que queríamos evitar. Stress constante, muitos conflitos e discussões, e um ritmo que, ainda que inicialmente parecesse tranquilo, depressa se revelaria alucinante. Nunca viajámos com um bebé, e isso é notório. Adiciona a toda a logística de tomar conta de uma criança em fase de introdução alimentar a necessidade de trabalhar (para ambos) e de mudar de poiso a cada 5 ou 6 dias – com deslocações longas e cansativas – e está dado o mote para o surgimento de um sem-fim de problemas. Para ela, a falta de uma rotina e o peso da responsabilidade eram obstáculos difíceis de ultrapassar. Para mim, a sensação de que, apesar de todo o esforço e vontade, não estava a conseguir fazer tudo o que tinha planeado e que, pior que isso, a experiência não estava sequer a ser divertida. Se é esse o caso, então para quê continuar?

O regresso a Portugal foi duro. Arrisco até dizer, terrível. A cada dia que passa, sinto que estou a perder tempo. Como se estivesse constantemente a desperdiçar as oportunidades maravilhosas que a vida me tem dado. Mas à medida que o tempo passa, começo a observar as coisas de forma ligeiramente diferente. De gatinhar, o Oliver passa a andar. As sopas e purés passam a pratos de comida, e aquela “batatinha” que mal saía do sítio agora anda a correr pela casa fora, a apontar para tudo enquanto balbucia sons aparentemente aleatórios que na sua cabeça lá farão algum sentido. Não tarda, falará.

E percebo que talvez não tenha apanhado a verdadeira mensagem do filme. Durante a trama, quando questionado sobre o porquê de querer despedir-se e deixar a sua carreira estável e bem remunerada, o protagonista refere as exigências físicas e mentais do sector financeiro. Diz ele que, desde o início da sua carreira, tudo lhe é exigido de forma imediata, e que quando trabalhava nos EUA, seu país de origem, lhe diziam constantemente para se despachar porque “it’s already tomorrow in Hong Kong”. Mesmo que de forma inconsciente, talvez tenha interiorizado este mantra. Especialmente no que toca a viagens, sou sempre acompanhado deste nervoso-miudinho de estar constantemente a “perder” alguma coisa. Como se estar aqui significasse perder o que se está a passar acolá. Como se a vida só fizesse sentido na estrada, em movimento constante e na busca perpétua por uma nova paisagem, uma nova realidade ou um novo cheiro. É uma adição, e como todos os vícios, deve ser controlado.

Mas estar em Portugal 5 meses a ver o meu filho crescer, talvez tenha ajudado a mudar a minha perspectiva. Sim, já é amanhã em Hong Kong.. mas isso também pode significar que o sol irá sempre nascer no dia seguinte. Sem pressas, porque amanhã também é dia. Sem ansiedade, porque o mundo não acaba hoje. Não é um exercício fácil, e não raras vezes o meu cérebro continua a claudicar e a levar-me para o meu ciclo perpétuo de FOMO, mas continuo a tentar desenvolver a virtude da paciência. Mais devagar, com mais calma.

Esta crónica, que começou como o potencial fim de um ciclo, é na realidade a renovação e princípio de outro. As viagens longas continuarão a acontecer, mas sem a pressão de ter que ver ou fazer tudo, nem de ir a todo o lado. Porque já é amanhã em Hong Kong, e podemos sempre voltar no futuro. E no exacto momento em que escrevo estas palavras, são 3 da manhã num qualquer hotel de Pequim e o meu filho está a correr pelos corredores, numa luta renhida contra o jet lag.

Amanhã, queria acordar às 7h00 e explorar um pouco, antes de voltar ao hotel para trabalhar, mas a este ritmo será impossível. Inevitavelmente, começo a sentir a ansiedade a crescer-me no peito e o FOMO a instalar-se. Mas são alguns dos primeiros passos que o Oliver dá sem qualquer apoio, e este é um espectáculo que me maravilha mais que 100 Muralhas das China. Já é amanhã em Hong Kong, mas deixem-me só ficar aqui a olhar para o dia de ontem mais um bocadinho.

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