Os inconformados de Akihabara 🇯🇵
Apesar das imensas maravilhas da pacífica e organizada sociedade nipónica, o Japão esconde também em si um lado sombrio e repressivo. Se não te adaptas, não serves. O nosso editor ajuda a explorar as origens dessa mentalidade e – ainda melhor – a forma como a juventude a começa a desafiar.
“We are the nobodies, wanna be somebodies
We’re dead, we know just who we are”
The Nobodies, Marilyn Manson (2001)
Poucos países gozam de uma reputação melhor que a do Japão. Perguntem a uma pessoa aleatória quais os pensamentos/estereótipos que têm acerca do país, e o mais provável é que sejam atingidos por uma enxurrada de comentários positivos. Percebe-se. Do civismo colectivo à eficiência dos transportes públicos, passando pela limpeza imaculada e por uma cultura milenar, a sociedade japonesa simplesmente funciona. No entanto, nem tudo é um mar de rosas no “País do Sol Nascente”.
Para isso, é importante perceber o isolacionismo histórico do país. Afinal, o Japão é uma ilha situada num dos cantinhos com maior actividade sísmica e vulcânica do planeta. Em tempos antigos, com as barquetas e técnicas de navegação elementares, navegar com sucesso até à costa nipónica era difícil.
Para além disso, e mesmo que alguma força invasora conseguisse atracar no Japão com uma frota grande o suficiente para conquistar o país, teria ainda que encontrar forma de atravessar uma paisagem altamente montanhosa e muito pouco arável, condições espectaculares para a defesa da ilha. À conta disso, o Japão nunca foi conquistado. Nem as temíveis hordas mongóis de Gengis Khan, que conquistaram toda a Ásia Oriental e Central, conseguiram encontrar forma de o fazer. Curiosamente, as primeiras influências não-asiáticas chegaram pelas mãos dos portugueses, que aqui atracaram no século XVI e estabeleceram uma relação comercial com o Império. No entanto, quando essas influências começaram a ter grande tracção na sociedade japonesa, os Shoguns trataram de fechar o país a sete chaves e preservar o seu poder, seguindo-se 250 anos de isolacionismo que ficaram conhecidos como o período Edo. Nesse período, a sociedade era organizada por castas, sendo que os governantes e samurais eram tratados com a reverência reservada aos deuses. Mesmo depois de o Imperador Meiji reabrir o país, as guerras mundiais e a destruição a que o Japão foi sujeito contribuíram ainda mais para essa forte mentalidade de grupo. Era preciso reconstruir o país, e todos tinham que contribuir.

Agora que já terminámos a mini-lição de história, fica um bocadinho mais fácil perceber as peculiaridades da sociedade japonesa. No entanto, se a mentalidade de organização colectiva ajuda a manter a coesão da sociedade, outros pontos existem que podem tornar a vida no Japão extremamente difícil. O respeito indiscriminado pela hierarquia, a vida organizada em função do trabalho ou a indiferença pela singularidade, contribuem para uma mentalidade em que todos são, de uma forma ou outra, obrigados a enquadrar-se na realidade vigente. Adapta-te ou fica para trás – é o motto do Japão, um país que, apesar da industrialização e dos avanços tecnológicos, é bastante resistente à mudança. Talvez isso ajude a explicar as alarmantes taxas de suicídio.
Se isto faz com que um estrangeiro a viver no país nunca seja visto como igual entre a maioria dos Japoneses, quero com este texto focar-me nas gerações mais jovens. É que pela primeira vez na sua história milenar, o Japão está a assistir a uma mudança definitiva de paradigma. Lenta, é certo, mas constante. Ao contrário dos seus pais e avós, as novas gerações nipónicas querem coisas diferentes. Não querem viver para o trabalho, querem desfrutar do seu tempo. Querem uma sociedade de lazer. Querem vestir o que lhes apeteça, sem julgamentos. Querem trazer para as ruas as personalidades que só se revelariam dentro de 4 paredes. Querem poder ser eles próprios. Querem livrar-se das amarras do conformismo. Querem ser a força motriz da mudança numa sociedade que, apesar do crescimento económico, está social e historicamente estagnada. Em suma, querem livrar-se do eterno conflito nipónico entre o “honne” (os nossos verdadeiros pensamentos) e o “tatemae” (aquilo que transparecemos em sociedade para “parecer bem”).

Lembro-me disso quando passeio por Akihabara, considerado o berço da cultura geek e alternativa de Tóquio. Um mundo à parte do caos controlado do resto da metrópole, e um distrito onde as rédeas são um pouco mais soltas. Aqui, o Japão parece um pouco menos uniforme. Nas ruas, as roupas neutras dão lugar a verdadeiras explosões de cor. Um statement em forma de tecidos de renda, saltos altos, laçarotes e perucas coloridas. Dentro dos edifícios, que se transformam em autênticas galerias comerciais de vários pisos, os jovens juntam-se sem pudores e aproveitam o tempo livre para jogar nas barulhentas e aparentemente indecifráveis máquinas de pachinko, comprar collectibles de anime ou tomar uma bebida num dos estranhíssimos (em aspecto visual e conceito) maid cafes. Uma lição de escapismo face à castigadora e opressiva mentalidade da maioria japonesa, e um microcosmo de uma geração imparável que choca de frente com o silêncio e as virtudes das “boas maneiras”.
Silêncio e barulho. Escuridão e luz. Feio e bonito. Comodismo e irreverência. Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Tudo como uma grande cidade deve ter. Tóquio talvez seja a maior de todas, e conta agora com um exército cada vez maior de inconformados. Numa esquina perto de si, em Akihabara.

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