Sargaço no México e Caraíbas: O que é, países afectados, meses a evitar, origem do problema e possíveis soluções 🪸🥬⛱️
Artigo dedicado a estudar o cada vez mais sério problema do sargaço na zona das Caraíbas e da Riviera Maya do México. Abordamos o que é o sargaço, quais as suas causas, potenciais soluções, as épocas a evitar e os países mais afectados pelo fenómeno.
Aquilo que era outrora um fenómeno natural ocasional, com ciclos curtos e pouco intensos, tem vindo a tornar-se um dos principais desafios ambientais, turísticos e económicos de toda a zona das Caraíbas. É aí que, todos os Verões, vagas absolutamente mastodônticas (e a ficar cada vez maiores) de sargassum/sargaço dão à costa, cobrindo praias, impossibilitando a entrada na água e infestando as redondezas com um cheiro pestilento e uma imagem que não podia estar mais longínqua das fotografias de cartão-postal presentes em todos os sites e agências que promovem o turismo nesta região.
Posto isto, o The Independent quis ouvir vários especialistas que se dedicaram a estudar o sargaço, com o objectivo de melhor perceber o fenómeno e, acima de tudo, de entender quais as previsões para o futuro e se existem formas de mitigar o problema. No entanto, é preciso começar por esclarecer o que é ao certo o sargaço – uma palavra que curiosamente foi “oferecida” ao mundo pelos portugueses (o nome em inglês, sargassum, deriva da palavra original lusa).
O que é o sargaço?
De forma muito simplista, o sargaço são as algas flutuantes castanhas que se formam e viajam ao longo do Mar dos Sargaços, uma região alongada no meio do Atlântico Norte, cercado por correntes oceânicas.
Ao contrário das restantes algas, que se fixam ao fundo do mar, o sargaço é uma alga pelágica, o que significa que fica à deriva na superfície, reproduzindo-se de forma assexuada e unindo-se a outras vagas de sargaço até formar aglomerados significativos. De resto, este sempre foi um fenómeno natural e sem grande expressão, traduzindo-se meramente na presença de mais algas que o normal junto à costa Caribenha, mas sem causar qualquer disrupção nas actividades turísticas e balneares do quotidiano. No entanto, tudo mudou a partir de 2011, quando vagas anormalmente gigantes de sargaço começaram a aparecer no Atlântico Tropical, entre as costas de África e do Brasil.

Infelizmente, esta região do Atlântico parece conter propriedades que alimentam (e de que maneira) o crescimento do sargaço, acabando por ser o principal contribuidor para a formação do Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico, de longe o maior ponto de florescência de algas do planeta! Desde 2011, esse cinturão tem crescido de forma descontrolada, acabando por levar quantidades dantescas de algas para as costas do Mar das Caraíbas, América Central, Golfo do México e Sul da Flórida. Em 2025, vários cientistas estimaram que o cinturão continha mais de 37 milhões de toneladas de sargaço, prevendo ainda que a campanha de 2026 (que ainda decorre) iria quebrar todos os recordes de acumulação desta alga.
Que países são afectados pela acumulação de sargaço?
Conforme já mencionámos, os principais países do globo afectados pela acumulação de sargaço podem ser encontrados nas Caraíbas. No entanto, convém lembrar que o sargaço vem do Atlântico, pelo que, na perspectiva caribenha, vem do leste (sentido este-oeste). Ora, isto significa que as zonas costeiras viradas para leste serão sempre as mais afectadas, já que não têm qualquer protecção e estão orientadas directamente para as vagas. Como tal, o efeito não é igual para todos os países, dependendo da localização das suas estâncias mais populares e da existência de outras zonas de praia de boa qualidade. No caso de Cuba, por exemplo, a zona de Varadero fica na costa norte, logo é muito pouco afectada pelo fenómeno. Já na República Dominicana, Punta Cana fica precisamente na costa este, recebendo por isso os piores efeitos do sargaço.

Posto isto, e embora com diferentes níveis de intensidade, o sargaço tende a afectar as muitas ilhas que compõem a região. Entre essas, podemos referir Barbados, República Dominicana, Haiti, Jamaica, Cuba, Trinidad & Tobago, Dominica, Antígua e Barbuda, São Cristóvão e Neves, Ilhas Caimão, Santa Lúcia, entre outras. Adicionalmente, o estado Norte-Americano da Flórida é outra das grandes “vítimas”, com a costa Atlântica a ser atingida pelo fenómeno. Se olhares para um mapa, é neste lado que encontrarás Miami, Fort Lauderdale, Boca Raton, West Palm Beach, Daytona Beach ou Key West. Na América Central, o Belize é tradicionalmente o país mais atingido, ao passo que as restantes nações experienciam vagas limitadas e sem grande expressão (na costa do Pacífico, não há qualquer sargaço).
Olhando à América do Sul, poderão igualmente existir vagas nas costas a norte banhadas pelo Mar das Caraíbas, nomeadamente na Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e até mesmo no Brasil, embora neste último os episódios estejam sobretudo limitados ao estado do Amapá. No entanto, é importante frisar que a acumulação de sargaço nestas regiões é muito reduzida, e dificilmente tem qualquer tipo de impacto na experiência turística. Por outro lado, o mesmo não se pode dizer da região da África Ocidental, com a costa do Golfo da Guiné (do Senegal à Nigéria) a receber fortes vagas de sargaço todos os anos.

Finalmente, fechamos com o país mais gravemente afectado por este problema: o México. Um pouco por toda a costa de Quintana Roo, encontrarás praias e mais praias totalmente cobertas de algas, num cenário que tem consequências gravíssimas para toda a região da Riviera Maia e que já dura durante mais de metade do ano. Entre os destinos afectados, incluem-se Cancún, Playa del Carmen, Tulum, Puerto Morelos, Akumal, entre muitos outros. Se quiseres fazer praia no México durante a época do sargaço e quiseres escapas às algas, a tua melhor hipótese passa por fugir para a costa do Pacífico. Alternativamente, para poderes fazer praia em Quintana Roo nessa altura tens sempre a hipótese de Holbox, das costas ocidentais das ilhas de Cozumel e de Isla Mujeres ou da fabulosa lagoa de Bacalar. Os cenotes não são afectados pelo sargaço.
Quais são as épocas e meses onde há mais sargaço?
Embora os períodos possam ser mais longos ou curtos consoante o teu destino, normalmente a época do sargaço tem lugar de Abril a Outubro, com a maior concentração a decorrer nos meses de Julho e Agosto. No entanto, a situação é inconstante e tem mostrado tendência a piorar e a alastrar-se (ainda mais) no tempo. No caso Mexicano, que como referi acima é o mais prevalente, o ano de 2026 tem sido um absoluto desastre, com a campanha a mostrar os primeiros sinais ainda em Janeiro e a entrar em força em Março, com mantos gigantescos – típicos do pico da temporada – a cobrirem as praias da Riviera Maia em Maio.

Como tal, deves guardar a tua aventura Mexicana para os meses compreendidos entre Novembro e Março, embora devas estar preparado para apanhar um pouco de sargaço independentemente das circunstâncias. Quanto a outros destinos, deves manter uma expectativa semelhante para o Belize, para a costa Atlântica da Flórida e para destinos caribenhos que fiquem directamente na costa oriental virada para o Atlântico (Punta Cana, por exemplo).
Já no Golfo da Guiné, em África, a temporada pode variar ligeiramente de país para país, consoante a época das chuvas. Seja como for, e pegando no exemplo do Senegal, que é possivelmente o destino mais popular da região, os períodos mais problemáticos vão de Maio a Agosto, incidindo sobretudo nas regiões costeiras do centro e sul do país. As outras nações seguem um calendário algo semelhante, embora possam existir uma ou duas excepções à regra. Para fechar, os efeitos do sargaço são (por agora) mínimos nos países acima mencionados da América do Sul, pelo que não serão de esperar grandes disrupções, mesmo que vás no pico da temporada.
Quais são os efeitos do sargaço nos locais afectados?

Os impactos, embora mais visíveis no aspecto nada apelativo das praias, vão muito além da componente estética. Para começar, não há como não falar do rude golpe nas contas de todas as empresas e pequenos negócios que sobrevivem do sector do turismo, uma vez que o número de chegadas decresce exponencialmente durante os meses afectados. Tendo visitado o México recentemente em pleno pico da época do sargaço, devo dizer que o cenário era quase sempre aterrador junto à costa, o que acabava por traduzir-se em hotéis vazios, ruas despidas e uma aura de cidade semiabandonada em muitos dos hotspots turísticos da Riviera Maia.
Outras consequências graves e visíveis da acumulação expressiva de sargaço dizem respeito ao entupimento de portos, bloqueios às actividades de pesca, erosão da costa e danos aos já frágeis ecossistemas marinhos da região. Adicionalmente, a limpeza dos locais afectados tem vindo a tornar-se uma operação cada vez mais massiva e custosa, com as autarquias e resorts e gastarem orçamentos progressivamente maiores numa tarefa aparentemente inglória (passadas algumas horas, as praias voltam a estar cheias de sargaço).
A nível ambiental, e à medida que as algas se decompõem na costa, vão soltando gases que contêm sulfeto de hidrogénio, amónio e metano, criando odores extremamente desagradáveis e afectando a qualidade do ar, a saúde pública e a emissão de gases de efeito de estufa.
O que causa a produção massiva de sargaço?

Para tentarem encontrar possíveis soluções, os cientistas andam há anos a tentar identificar os possíveis factores por trás da rápida expansão do Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico. De acordo com estudos feitos até ao momento, existem vários pontos que podem ter contribuído para o agravamento do fenómeno, nomeadamente o excesso de nutrientes escoados a partir das bacias dos rios Congo (em África) e Amazonas (no Brasil), as poeiras do Sahara transportadas ao longo do Atlântico ou as mudanças registadas nas temperaturas, ventos e correntes dos oceanos. Ao mesmo tempo, a construção desenfreada ao longo da Costa Caribenha, sem qualquer cuidado ou respeito pelo equilíbrio do ecossistema, contribui igualmente para que não exista qualquer barreira natural à acumulação das algas.
Ainda assim, e embora cada um destes factores tenha contribuído para o desastre económico e ambiental, nenhum deles explica inteiramente o porquê de o aumento desenfreado da florescência ou a sua evolução exponencial ao longo dos anos. Agora, um novo estudo parece sugerir que as razões para o descontrolo podem ter variado ao longo do tempo, começando pelos ventos invernosos mais fortes que o habitual em 2010, que levaram as algas do Mar dos Sargaços para sul, rumo às águas tropicais e nutritivas do Atlântico Tropical, onde proliferaram muito mais do que a norte.

Mais importante ainda, o cinturão flutuante que se formou parece ter criado uma espécie de ecossistema autossustentável, providenciando um habitat natural para peixes, camarões, caranguejos e inúmeros seres microscópicos. E embora isto possa à primeira vista parecer algo positivo, a verdade é que estas espécies reciclam nutrientes através da decomposição de organismos, concentrando os recursos em redor das algas e alimentando a florescência de mais sargaço (que irá depois dar à costa). De resto, alguns modelos matemáticos desenvolvidos por cientistas conseguiram reproduzir os padrões de florescência entre 2011 e 2022, prevendo com sucesso o volume de sargaço de 2023 e 2024 sem contabilizar a possível interferência de padrões externos. Só isto já parece ser um indicador encorajador para a teoria de que o fenómeno é agora sobretudo autorreprodutivo.
Existe solução para o problema do sargaço?
Antes de avançarem com possíveis soluções, os especialistas alertam que o sargaço veio mesmo para ficar. Especialmente atentando à consideração acima de que o problema adquiriu uma natureza autossustentável, é quase certo que os episódios massivos de invasão de algas na costa continuarão num futuro próximo. Para além disso, com as alterações climáticas e o aumento considerável que se tem vindo a registar nas temperaturas das águas do mar, o mais provável é mesmo que o cinturão vá aumentando em volume e extensão.

De momento, as únicas medidas possíveis serão as de mitigação e de controlo de danos, o que naturalmente passa por investir com força em meios que permitam uma limpeza rápida e eficaz das praias (nomeadamente no que toca a mão-de-obra, equipamento e maquinaria), mas também em métodos que permitam impedir que partes substanciais dessas vagas cheguem sequer ao litoral. Entre estes últimos, destaca-se a instalação de barreiras flutuantes destinadas a apanhar o sargaço ainda em alto mar ou a criar um corredor artificial que prenda as algas e as direccione para locais específicos de recolha. Ao mesmo tempo, é cada vez mais comum encontrar barcos especializados na recolha do sargaço, normalmente equipados com sistemas de transporte e de escavação que permitem recolher a matéria directamente da água.
Ao mesmo tempo, é igualmente importante tentar minimizar a presença no mar de todas e quaisquer fontes de nutrientes que tendam a tornar a proliferação ainda pior. Em termos práticos, isso pode (e deve) reflectir-se na supressão do escoamento de fertilizante e de materiais poluentes dos esgotos para as águas das Caraíbas. O mesmo para todo e qualquer lixo que seja despejado no mar ou deixado nas praias, que acabará por ser arrastado pela maré. Outro factor a ter em conta está relacionado com a construção desenfreada de hotéis e apartamentos junto aos areais, que danificam os ecossistemas costeiros (como os pantanais) que em tempos serviam de filtro natural para prevenir a chegada do sargaço à costa.

Posto isto, e mais do que tentar evitar o fenómeno, o grande segredo passará por tentar prever o mais rigorosamente possível quando é que a florescência irá ocorrer e os factores que mais contribuem para cada vaga, desenvolvendo assim um mecanismo de alerta eficiente que possa ajudar cada comunidade a preparar-se da melhor forma para a chegada do sargaço. Ao mesmo tempo, uma boa ferramenta de previsão poderá igualmente contribuir para a transformação das pestilentas algas num recurso valioso.
Que utilização se pode dar ao sargaço recolhido?
Ao longo dos últimos anos o sargaço tem vindo a atrair interesse enquanto fonte renovável de biomassa, um material orgânico importantíssimo para a produção de biocombustível que não requer a utilização ou consumo de água doce, fertilizantes ou de terrenos agrícolas aráveis. Ao mesmo tempo, as algas podem igualmente ser processadas para o fabrico de fertilizante orgânico, ou podem passar por um processo de remoção de sal e de metais pesados para ajudarem na reparação dos solos (sem recurso a fertilizantes sintéticos neste caso). A par dos sectores da agricultura e da energia, há ainda quem use o sargaço como material de construção, produzindo painéis de parede comprimidos, tijolos de baixo custo e aditivos de argamassa a partir das algas.

Posto isto, se os especialistas conseguirem prever a duração das vagas e a quantidade prevista de sargaço que dará à costa em cada região, a economia local terá a oportunidade de transformar este desafio em novas oportunidades empresariais, contribuindo até para uma maior diversificação do tecido económico das Caraíbas, que habitualmente depende de actividades de baixo valor acrescentado (como o turismo e a restauração). Assim, se uma empresa agrícola, de construção ou do sector da energia souber aproximadamente quanto sargaço conseguirá retirar de cada vaga, facilmente poderá organizar a sua actividade empresarial em torno dessa estimativa, adequando os planos e recursos.
Melhor ainda, e passando o sargaço a ser visto como um recurso valioso e indispensável para determinadas actividades económicas locais, serão as próprias empresas a empreender esforços para a limpeza e recolha das algas, investindo activamente em novas pesquisas e métodos que permitam bloquear a chegada do fenómeno à costa ou, no limite, libertando os custos da limpeza das praias dos honorários da autarquia e dos hotéis (o que contribui igualmente para uma melhor saúde das contas públicas e dos estabelecimentos hoteleiros).
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