12 horas no “país mais aborrecido do mundo” 🇧🇳
Após 1 semana em Pequim, o nosso editor parte agora rumo à Austrália, mas não sem antes ter a oportunidade de fazer uma escala longa na desconhecida e obscura nação do Brunei Darussalam, muitas vezes apelidada de “país mais aborrecido do mundo”. Numa curta aventura de 12 horas, ele conta-nos o que viu e experienciou neste recatado destino do Sudeste Asiático.
“We couldn’t be higher up
We’re walking the wire, wire, wire
So, look out down below”
Walking the Wire, Imagine Dragons (2017)
Saio do avião, e o ar quente e húmido atinge-me como uma locomotiva. Não sei qual é a temperatura neste momento, mas são 6 da manhã e, embora o sol ainda não tenha nascido totalmente, parece que já custa a respirar. Chego ao hotel já encharcado, do calor da indumentária adaptada ao tempo frio de Pequim, e do esforço de carregar todas as nossas tralhas e das do nosso bebé de 15 meses. Ainda agora cheguei e já estou arrependido, já que o pobrezinho passou os últimos 3 dias a batalhar febres de quase 40 graus. Logo à noite temos outro voo, agora de 7 horas, por isso tem tudo para correr mal.
É estranho estar aqui. Nunca tive a ambição de visitar todos os países do mundo. Embora não goste de deixar passar a oportunidade de meter o pé em sítios novos, a verdade é que há destinos que, seja pela inacessibilidade ou pelas características que talvez não se adequem tanto às minhas preferências, nunca considerei verdadeiramente visitar. A nação do Brunei é um desses destinos. Escondida num cantinho da ilha do Bornéu, maioritariamente ocupada por Malásia e Indonésia, o Brunei ostenta a pouco honorável fama de ser um dos países mais aborrecidos do mundo. Escusado será dizer, visitar o Brunei, cujo nome da capital nem sequer conhecia (e logo eu, que tenho a inútil habilidade de saber de cor quase todas as capitais do mundo), não estava propriamente no topo da lista de prioridades.
Por coincidência, quando estava a planear a viagem actual e a procurar a forma mais fácil de voar entre Pequim e a Austrália, a opção mais económica era oferecida pela Royal Brunei, a transportadora oficial do país. Evidentemente, esta opção incluía uma escala em Bandar Seri Begawan (nunca mais me esqueço do nome), como quase todos os voos da companhia. Praticamente todas as escalas da RB são feitas durante a noite, mas por alguma razão a nossa paragem de 12 horas teria lugar durante a manhã e tarde, oferecendo-me assim a invulgar possibilidade de passar meio dia na capital do Brunei.

Como aterrámos de manhã, reservei a noite anterior num hotel aleatório da capital, para que possamos descansar umas horitas antes da visita expresso. Faço o check-in à velocidade da luz e sigo para o quarto, mas não sem antes parar envergonhadamente na sala de pequeno-almoço de tupperware na mão, onde selecciono uns ovos cozidos e alguns pedaços de pão para o bebé comer quando acordar. Yep, a paternidade tirou-me o que restava da pouca vergonha que já tinha.
Finalmente, caio que nem uma pedra na cama, com o despertador religiosamente colocado para dali a 4 horas. Fecho os olhos por aquilo que pareceram 10 minutos, e dispara o som artificial de pássaros a chilrear. A vontade de ficar na cama não é modesta, mas esta será provavelmente a única oportunidade que terei de conhecer este país, por isso lá me arrasto até à casa de banho para lavar a cara com água gelada. O Oliver ajuda, já que parece ter acordado bem-disposto depois de dormir durante toda a viagem de avião e apesar da febre recente.
Se às 6h00 o tempo estava abafado e húmido, pelas 11h30 o calor era já quase insuportável. Agora percebo o barulho de fundo do AC a funcionar em força no quarto, provavelmente em sobreaquecimento pelo acumular de sujidade nos filtros e condensadores. Quem quer que o tenha instalado e programado, só lhe desejo que tenha sempre os dois lados da almofada bem fresquinhos.
Depois de sairmos à rua e sermos então assoberbados por semelhante bafaredo, lá traçámos um plano: caminhar até ao centro e encontrar um sítio fechado onde almoçar e esperar que o pico de calor passe. Parece simples, certo? O primeiro desafio coloca-se assim que tentamos seguir o percurso traçado pelo Google Maps, já que a capital Bandar Seri Begawan parece ser parca em passeios e a plataforma nos envia pela berma de uma auto-estrada com um carrinho de bebé. Sinceramente, não consigo pensar em melhor forma de aprender que o Brunei é um dos 10 países com maior número de carros por pessoa. Aqui, é tão natural toda a gente ter o seu próprio carro que os táxis são espécie rara e os transportes públicos extremamente rudimentares.

A custo, lá chegamos ao centro e à Mesquita Omar Ali Saifuddien, considerada o grande símbolo da nação. É um edifício imponente, cercado por uma espécie de lago e coroado com uma cúpula dourada que reflecte a luz do sol na perfeição. Infelizmente, o resto da baixa não faz propriamente pandã com o local de culto, sendo formada por edifícios descaracterizados e pouco agradáveis à vista. É meio-dia e o Adhan vindo dos minaretes da mesquita ecoa por todo o distrito, chamando os fiéis a orar. A população acede, ou não fosse este um país profundamente devoto ao Islão.
Aliás, numa das raras ocasiões em que o Brunei fez manchete nos media internacionais, ficou infame a aprovação de uma lei em 2019 que tornava possível condenar homossexuais à morte por apedrejamento, um cartão-de-visita absolutamente encantador para quem quer que cá decida vir. Felizmente, e 6 anos volvidos, não há histórico de qualquer condenação nesse sentido, mas a leitura literal da sharia – a lei religiosa Islâmica – no código penal e judicial do país continua presente.
À medida que os locais vão enchendo a mesquita, decidimos então procurar um sítio onde parar. No primeiro café onde entramos, o dono sinaliza que estão encerrados. O mesmo para o segundo, que parece um restaurante tradicional. Há uma galeria comercial na baixa, mas o interior está vazio e os sensores das portas automáticas recusam-se a abrir à nossa aproximação. Em desespero, tentámos ainda uma cadeia de fast-food, mas também aí somos convidados a sair. Confuso, lá pergunto a razão pela qual tudo está fechado àquela hora, recebendo como resposta que o Sultão decretou que todos os estabelecimentos comerciais devem fechar para oração entre as 12h00 e as 14h00 de Sexta-Feira. Excelente pontaria!
Com o termómetro a marcar 36 graus e uma humidade de fazer colar a roupa ao corpo, lá encontrámos resguardo na recepção de um hotel, onde o staff pareceu ter pena de nós e nos deixou ficar sentadinhos num sofá à espera que a reza termine e a cidade volte ao normal. É cada vez mais aparente que a questão religiosa, embora extremamente presente no quotidiano geral, não penetra a alma de todos de igual modo. Apercebo-me disso à medida que o tempo de suposta reflexão e veneração passa, e as duas recepcionistas, de hijab e abaya impecavelmente colocados, continuam a fazer scroll pelas redes sociais enquanto mascam partilha elástica. Será o Islão do Brunei apenas uma questão de tradição e de status quo? Não passarei tempo suficiente aqui para perceber.
Depois de esperarmos quase duas horas até o snack bar do hotel abrir para alimentarmos a criança, eis que o Oliver decide adormecer literalmente 5 minutos antes das 14h00. Ainda arrisco propor sairmos juntos para explorar enquanto ele dorme, mas antes de acabar a frase já ela me lançava um daqueles olhares fulminantes que só pode ter como resposta um “… Ou se calhar não, deixa estar”. Eu quero ir em família, ela quer que vá sozinho enquanto fica relaxadamente no café a acompanhar o puto na sesta. Depois de alguma discussão, lá chegámos a um acordo justo para ambas as partes: vou sozinho enquanto ela fica relaxadamente no café a acompanhar o puto na sesta.

Derrotado, lá me aproximo da zona portuária para encontrar um barco. Li algures que Bandar Seri Begawan ostenta o maior aglomerado de casas construídas em estacas sobre a água (stilthouses, em inglês), com um distrito inteiro a ocupar uma área de 10 quilómetros quadrados. Formado por várias vilazinhas de mais de 4000 edifícios onde vivem cerca de 30.000 pessoas, Kampong Ayer era o sítio que mais queria visitar no Brunei. Da margem da cidade, a comunidade é imediatamente visível, ao ponto de ser até plausível nadar até lá, não fosse a inconveniente presença de crocodilos. Afinal, estamos a escassos quilómetros da natureza intocada da Selva do Bornéu, uma das florestas tropicais mais antigas e diversas do mundo.
Assim que me aproximo do rio, sou imediatamente interpelado por um local numa barqueta. Oferece-se para me levar ao outro lado, mas pergunta se estou interessado em entrar de barco pela selva e procurar Macacos-Narigudos, a espécie de primata que, tal como o nome indica, é conhecida pelos seus proeminentes e gelatinosos narizes. Já que esta era uma das actividades mais recomendadas aquando da minha pesquisa acerca de coisas para fazer no Brunei, lá decidi arriscar. E aqui “arriscar” é mesmo o termo certo, já que estes macacos são notoriamente esquivos e a probabilidade de os encontrarmos é mesmo de 50/50.

Por 35 dólares do Brunei (algo como 22€), lá apertamos mãos e fazemo-nos ao leito. A mudança na paisagem é tão repentina quanto assinalável. Embora Bandar Seri Begawan não seja propriamente Nova York, continua a ser uma cidade com prédios e estradas, pelo que a forma como dás por ti totalmente cercado por selva e pelos ruídos da fauna em literalmente 5 minutos é quase bizarra.
Pelo caminho, dá para ter um vislumbre do mastodôntico Istana Nurul Iman, residência oficial do Sultão do Brunei e oficialmente o maior palácio real do mundo, com mais de 200.000 metros quadrados interiores. Um lar digno do governante que – para surpresa dos mais desatentos – é o mais rico do planeta. Afinal, o Brunei é um país riquíssimo em recursos naturais como petróleo e gás natural, ostentando por isso um dos PIB per capita mais altos da actualidade. Como em qualquer regime absolutista (o Sultão ocupa simultaneamente as posições de Primeiro-Ministro, Ministro da Defesa, Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ministro da Economia e Finanças), muita dessa riqueza fica concentrada no topo, embora a população do Brunei desfrute de um nível de vida bastante bom comparativamente com a realidade do Sudeste Asiático.
O caminho é sublime. Águas turvas e infestadas de crocodilos, cercadas por vegetação densa e aparentemente impenetrável. O som do motor do barco toma conta do ambiente, intermitentemente interrompido pelo ensurdecedor barulho da selva, que surge de cada vez que o meu companheiro pensa ter detectado alguma coisa mover-se nas árvores e decide parar a embarcação.

Falso alarme. Uma e outra e outra vez, até que chega a hora de voltar para trás, sob o risco de perder o voo para o destino seguinte. Mas do nada, surge uma pontinha de sorte. Nas copas das árvores junto à margem, dois macacos-narigudos repousam, provavelmente depois de umas boas horas a alimentarem-se de frutos, folhas e sementes. Um deles escapula-se de forma quase imediata, saltando de galho em galho até desaparecer pelo labiríntico ecossistema do Bornéu. O outro não parece incomodado, deixando-se filmar e fotografar enquanto descansa. Não foi mau de todo, tendo em conta a alta probabilidade de desilusão!
De regresso ao porto, peço então ao barqueiro para me deixar dar um passeio rápido por Kampong Ayer. E se este era o ponto que recolhia maiores expectativas, verdade é que não desiludiu. Não que seja um local convencionalmente bonito, mas assistir, ainda que de forma breve, à forma como tanta gente consegue viver a sua vida sobre as águas, tem um encanto bastante próprio. Um modo de vida tão distante da minha experiência, que mesmo depois de lá ter estado continua a ser difícil concebê-lo. Aqui, as estradas são substituídas por passadiços em madeira ou plataformas de betão, os carros por barcos a motor e os sistemas de canalização por métodos rudimentares de tratamento e despejo de resíduos.
Apesar disso, e para além da sua gigantesca dimensão, existe outro factor que diferencia Kampong Ayer de outras vilas de stilthouses (casas sobre estacas) espalhadas pelo mundo, como Ganvie (Benin), Makoko (Nigéria) ou as aldeias das tribos de ciganos do mar (Tailândia e Filipinas). Ao passo que, nestes sítios, as comunidades são exclusivamente formadas por populações extremamente pobres e/ou isoladas, o caso de Kampong Ayer é distinto. Sim, claro que também aqui residem algumas famílias com grandes carências económicas, mas o espaço é partilhado com verdadeiras mansões habitadas por outras famílias ricas e da classe média. Pessoas cujos parentes aqui habitam há gerações e que aqui optam por ficar por ser esta a realidade com que sempre conviveram. Para eles, Kampong Ayer é legado, e não último recurso.

Despeço-me do meu novo amigo e recolho a minha família do seu esconderijo fresco no hotel “emprestado”, agora com destino ao local onde ficámos alojados. Chegamos mesmo em cima da hora, mas ainda dá tempo para um duche de 5 minutos e uma muda de roupa mais fresca, antes de apanharmos o transfer de volta ao aeroporto.
O Brunei não é nada de especial, e muito dificilmente cá voltarei, mas não sei se será o “país mais aborrecido do mundo”. Seja como for, não posso deixar de me sentir um tipo imensamente privilegiado. Isto foi o meu dia de folga. Acordei em Beijing, cumpri o meu turno, voei durante a noite para o Brunei, gozei a minha folga, e agora voarei durante a noite para a Austrália, onde gozarei a segunda folga antes de retomar o trabalho algures em Melbourne. Os deuses devem estar loucos.
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