Crónica: “Deus está morto 🇲🇽”
A primeira de várias crónicas do nosso editor após chegar ao México para uma estadia de 2 meses. Uma reflexão sobre a assimilação cultural resultante do colonialismo na América Central e um alerta de que existem várias formas de matar uma religião e – por arrasto – Deus.
“Nothing from nowhere, I’m no one at all
Radiate, recognize one silent call
As we all form one dark flame.
Incinerate.”
Miseria Cantare, AFI (2003)
Acabadinho de chegar ao México, e ao fim de uns 2 dias de interregno para ajudar o pequenote a ajustar-se lentamente à mudança de horário, aproveito para dar um passeio pelo Zócalo. Embora o nome diga respeito a todo o centro histórico da Cidade do México, o Zócalo tornou-se de forma não-oficial a designação que toda a gente dá à Plaza de la Constitución, considerada a mais importante da capital do país e uma das maiores do mundo.
Agora cercada por todos os lados de majestosos edifícios coloniais, quase custa a acreditar que o Zócalo foi em tempos o coração de Tenochtitlán, uma das maiores cidades do mundo e a capital do poderoso e vasto Império Azteca. Há 500 anos, quando os espanhóis atravessaram os passes montanhosos e o terreno acidentado do Vale do México, depararam-se com uma sociedade organizada e uma cidade evoluída e estruturada, onde os canais serviam de vias de transporte e comunicação.

Hoje em dia, pouco ou nada sobra desse período na Cidade do México. Nem mesmo os canais, que foram propositadamente secados e esvaziados pelos poderes coloniais, de forma a que a Nova Espanha – o nome dado ao actual México após a queda dos Aztecas – pudesse ser construída da forma mais semelhante possível à Espanha do lado oposto do Atlântico.
No centro da gigantesca praça, repousa a Catedral Metropolitana, construída à força como o derradeiro símbolo da superioridade cristã Espanhola sobre o paganismo dos selvagens nativos. Embora a história da Humanidade seja feita de guerras, conquistas e assimilações forçadas, a magnitude da destruição cultural levada a cabo pelo Império Espanhol na América Central não conhece rival. Outrora terreno fértil para uma data de civilizações Mesoamericanas, como os Aztecas, os Maias, os Olmec ou os Zapotecas, o legado cultural destes impérios ficou praticamente esfumado com a chegada do Colonialismo.
Sim, sobram as ruínas como atracções turísticas, mas as pedras não falam e a história por trás de muitos destes locais arqueológicos permanece um gigantesco mistério para os Historiadores. Perderam-se as línguas nativas, os hábitos culturais, as festividades locais, a História destes povos e – evidentemente – os seus Deuses e credos. Sou particularmente lembrado deste último factor à medida que observo novamente a Catedral Metropolitana, o tal gigantesco tributo católico empreendido em pleno coração do império inimigo.

Para tornar tudo ainda mais doloroso, a própria igreja foi construída com pedras e materiais retirados do Templo Mayor, o principal local de culto dos Aztecas em Tenochtitlán. Depois da conquista, e com requintes de malvadez, os espanhóis desmantelaram então o templo erigido aos Deuses Huitzilopochtli, Tlaloc e Quetzalcoatl, soterrando o que sobrou da antiga cidade e erguendo o esqueleto da Nova Espanha sobre os escombros. Literalmente, enterraram a história e passado de Tenochtitlán. Os Deuses estavam mortos.
Apenas muitos séculos mais tarde, o que sobrou do Templo Mayor foi escavado e convertido num museu, mas a guerra do espírito estava há muito perdida. Meio milénio volvido, e o povo Mexicano é agora maioritariamente Mestizo, resultado de muitas gerações de consanguinidade entre Ameríndios e Europeus. Ainda assim, os traços étnicos da Mesoamérica continuam presentes. O tom de pele é castanho, as maçãs do rosto salientes, os maxilares protuberantes e os cabelos negros e escuros, mas comunicam entre si em Espanhol, vão à missa ao Domingo e deleitam-se com churros. A sua Americanidade está-lhes no sangue, mas por aí se fica.
Evidentemente, não estou a separar as culturas entre os bons nativos e os maus colonizadores, mas sim a apontar a riqueza cultural e histórica que se perdeu às mãos do colonialismo da América. Nas frestas, contudo, algo resiste. Uma percentagem mínima da população ainda é capaz de falar alguns idiomas antigos, mantém-se a agricultura de espécies nativas, e o trabalho artesanal com têxteis e tecidos continua a ser uma realidade que provém dos tempos pré-coloniais… mas sabe a poucochinho!

Talvez de forma mais prominente, alguns rituais pagãos Aztecas encontraram até a sua inclusão nas celebrações Católicas Mexicanas, com destaque para o lendário Dia de los Muertos. De resto, todo o culto do país em redor da morte é uma das características Mesoamericanas nativas mais importantes na mentalidade do México actual, presentes nos altares coloridos, nos objectos de adoração e na arte. A Igreja Católica bem tentou suprimir estes hábitos pagãos, mas de forma inteligente percebeu que abrir a porta à adaptação de alguns costumes locais acabaria por facilitar a conversão e assimilação da população.
A minha mulher, socióloga de formação, fez uma reflexão bastante interessante sobre este processo de assimilação cultural em massa, que talvez de forma ingénua a incentivei a publicar na nossa página de Instagram. Embora a reflexão tocasse em todos os pontos culturais referidos até aqui (língua, hábitos, costumes, etc.), o facto de o vídeo ter sido gravado dentro de uma igreja fez com que o público se focasse apenas na religião. E para mal dos nossos pecados, a publicação encontrou alguma tracção dentro da ecocâmara dos Evangélicos Brasileiros e do segmento da população portuguesa para quem a História tem zero nuances.
As reacções, obviamente, não foram simpáticas. Conforme esperado, quase todas interacções chamavam a atenção para o crime moral dos sacrifícios humanos para apaziguar os Deuses, uma realidade inegável do culto religioso Azteca, mas que muitos historiadores já afirmaram receber uma atenção desproporcional à frequência com que tinham lugar. Como sempre, quem ganha a guerra é quem conta a história, e que melhor pretexto que acabar com o sacrifício humano para legitimar a evangelização dos selvagens pouco civilizados.

Um ritual criminoso à luz dos valores Ocidentais do século XVI, é importante lembrar que a história do Cristianismo é também ela feita de crimes hediondos, como a Inquisição, os escândalos de pedofilia e os julgamentos por feitiçaria/bruxaria que acabavam com seres humanos a arder em fogueiras. E o que aconteceu? A Igreja cresceu, amadureceu, aprendeu e evoluiu, procurando desculpar-se pelos seus crimes e deixar esse tipo de acção selvática para trás. Algo que, inevitavelmente, aconteceria também com os sacrifícios humanos nas civilizações Mesoamericanas, à medida que o progresso científico, moral e tecnológico seguisse o seu rumo.
No entanto, esgrimir argumentos não te leva a lado nenhum no mundo digital, muito menos quando o tema é tão passional. Rapidamente, recebemos reacções que celebravam os católicos por “exterminar essa civilização horrenda da face da Terra” à medida que gritavam em caps “VIVA CRISTO REI” e nos acusavam de criticar a civilização Ocidental enquanto utilizamos smartphones e redes sociais (que é provavelmente o argumento que mais atestados de estupidez passa na actualidade, a par do “Gostas do socialismo? Então vai para Cuba/Venezuela/Coreia do Norte”).
No entanto, quanto mais lia as reacções e a bílis dos comentários, mais me apercebia que, dado o estado do mundo, talvez Friedrich Nietzsche tenha escrito direito por linhas tortas. O filósofo Alemão argumentou que o Iluminismo e o conhecimento científico iriam fazer com que a crença num ser superior deixasse de ser necessária, alavancando a Humanidade para um futuro inteiramente autónomo e sem a exigência de uma validação transcendental – celebremente clamando que “Deus está Morto”.
À luz da actualidade, contudo, julgo que o caminho para a mesma conclusão é na verdade bastante diferente, e que a morte da moralidade religiosa assentará na cada vez mais deslizante rampa rumo à Idade das Trevas e ao Obscurantismo. É que cada frase, cada insulto, cada celebração de genocídio mais me provava que Deus, afinal, está mesmo morto. O Bom Deus, o Deus Misericordioso, o Deus do Amor, o Deus-Luz – morto. Em seu lugar, sobra apenas o Deus da Cólera, o Deus Castigador, o Deus que governa pelo medo. O Deus-Fúria que ostenta todas as características que no mundo ocidental historicamente associamos aos deuses pagãos (como os da América Central).
Ironicamente, talvez os Aztecas tenham afinal vencido a Guerra do Espírito.
Todas as crónicas de viagem do nosso Editor:
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