O último reduto da dignidade 🇦🇺
Após a passagem relâmpago pelo Brunei, o nosso editor chega agora à Austrália. Mais do que uma mera informalidade estatística, a qualidade de vida na Land Down Under é palpável, chegando a quase todo o lado e a quase toda a gente, espoletando a mais recente crónica da nossa colecção.
“Take my true love by her hand
Lead her through the town
Say goodbye to everyone
Goodbye to everyone”
Take My Love by the Hand, The Limeliters (1960)
Enquanto viajante, aprecio pessoalmente estar num sítio onde todos parecem ter qualidade de vida. Após 2 semanas na Austrália, estou mais que convencido de que este é o Santo Graal da Humanidade, um país onde a abundância é evidente e consegue chegar a todas as esferas da sociedade – dos mais ricos aos mais pobres, dos mais privilegiados aos mais desfavorecidos. Claro que o país também tem os seus problemas (que a seu tempo abordarei noutra crónica), mas é inegável o quão bem o povo da Land Down Under parece viver.
Estou alojado em Westona, um subúrbio de Melbourne onde nada se parece passar, a cerca de 30 minutos de comboio do CBD – Central Business District – o coração da cidade. É o típico subúrbio que normalmente associamos à América do Norte. Moradias, jardins cuidados, uma praça central onde se concentram meia dúzia de negócios e a estação de comboios. De resto, nada se passa em Westona. É Domingo e entro numa das duas coffee houses da praça para me estrear nas lides do lendário brunch Australiano. Lá dentro, sentam-se alguns grupos de jovens e velhos a tomarem os seus flat whites junto com ovos e tostas.
Estamos numa cidade de 5 milhões de pessoas, mas a cada novo rosto que entra por aquela porta surge um vizinho ou conhecido que o chama pelo nome e lhe pergunta como vai. Entra o Frankie, octogenário que ainda está aí para as curvas e nos pergunta de onde somos. Entra a Helen e a Claire, que pelo que percebi fazem da ida àquele café uma tradição domingueira. Entra o Sanjay e o Rashid, dois amigos de origem indiana que discutem as novidades da última semana de trabalho. E entra uma família Filipina, que cria uma azáfama que rompe com o silêncio que até ali reinava. Mas todos se riem e ninguém se aparenta importar com o ruído. Parece que a vida na Austrália é demasiado boa para que alguém ouse sequer incomodar-se com um pouco de barulho numa manhã morna de Domingo.

No Airbnb, estou alojado com a Maria Fernanda e o Zaman, companheiros de casa há alguns anos e ambos radicados na Austrália há quase uma década. Ela trabalha a fazer limpezas de apartamentos turísticos e como “helper” de pessoas com problemas de mobilidade, ele tem uma oficina de reparações automóveis. Ela vem de uma pequena vila nos arredores de Bogotá, na Colômbia. Ele deixou 3 filhos na caótica cidade de Peshawar, no Paquistão. A casa é uma moradia de 2 pisos com 3 quartos, 3 quartos de banho e garagem, o tipo de habitação que nenhum português que ganhe o salário médio pode sequer sonhar pagar nos arredores do Porto ou Lisboa. Um sítio extremamente moderno e confortável, com a dignidade que todos os que procuram um tecto sobre a cabeça merecem.
Entro no comboio e faço o trajecto até ao centro de Melbourne, um distrito pujante, repleto de negócios e com uma combinação extremamente interessante de prédios altos modernos e edifícios monumentais clássicos do século XIX. Dizem que é a cidade mais europeia da Austrália, e à primeira vista já consigo perceber porquê. Hoje vou-me encontrar com o meu amigo Solomon, um miúdo inglês de apenas 25 anos que conheci há 2 anos enquanto viajava pelo Iraque. Como tantos outros jovens europeus, o Solomon, aproveitou o famoso work-holiday visa para passar 1 ano na Austrália, a tentar viajar e ganhar algum dinheiro ao mesmo tempo. É arqueólogo de formação, uma área de oportunidades bastante limitadas e que o leva a saltitar de país em país em busca de potenciais projectos que vão surgindo. Iraque, Turquemenistão, Arábia Saudita e agora Austrália.

Surpreendentemente, confessa que não estava à espera de encontrar emprego na sua área, mas a Austrália é um país com oportunidades frequentes no ramo da arqueologia. Aparentemente, sempre que uma empresa quer iniciar um projecto de construção em determinadas regiões, existe o hábito de subcontratar arqueólogos para avaliar se o terreno esconde algum tipo de vestígio arqueológico aborígene, a etnia dos povos que habitavam a Austrália antes da chegada dos colonizadores. Se não o fizerem e mais tarde se descobrir que a obra repousa sobre locais como cemitérios ou santuários aborígenes, arriscam uma multa épica, ou, na pior das hipóteses, que tudo tenha que ser suspenso. Escusado será dizer, as construtoras não arriscam.
O Solomon parece estar bem. Mais leve, mais solto, mais confiante. Uma evolução do miúdo loiro de cabelo comprido com muitas dúvidas em relação ao futuro que conheci na Mesopotâmia. O corte de cabelo ajuda, mas não é só isso. O almoço, num sítio relativamente hip e mais caro que a média, corre rápido ao som da conversa, das memórias e das novidades. No final, e antes de nos acompanhar num passeio, Solomon paga a conta à nossa revelia. Descomplexado, confessa que a vida lhe está a correr muito bem. Ganha mais do que nunca comparado com as experiências que teve noutros países, e diz que o custo de vida é baixo para os salários Australianos. Por um quarto num apartamento partilhado no CBD, em plena baixa de Melbourne, Solomon paga cerca de 500€ mensais. O mesmo valor que é normal encontrar pedido por um quarto em Lisboa… Com a diferença de que o salário médio em Melbourne é de 4000€. Diz que em Londres, por um quarto parecido numa localização equivalente, não lhe chegariam 1000€.
Com o tempo, viria a perceber que Solomon não mentia. Nos cafés, bares, restaurantes e supermercados, a verdade é que os preços não são assim tão diferentes daqueles actualmente praticados no nosso país. E isto numa nação onde a força de trabalho representa um custo brutal para qualquer empresa/produtor, e onde o IRC mais baixo é de 25%. Talvez seja uma questão de produtividade causada por uma mão de obra altamente motivada e qualificada, ou talvez seja um dos muitos benefícios de operar num mercado livre, sem cartelização de preços nos supermercados, banca ou telecomunicações (como acontece em Portugal). Seja o que for, e deixando de fora potenciais derivas políticas, o custo de vida acessível para o nível salarial acaba por fomentar o consumo e alimentar a economia. Seja qual for o dia ou a zona por onde passo, pessoas de todas as origens enchem cada estabelecimento, desfrutando do produto do seu trabalho.

De resto, todas estas histórias mostram um contraste fortíssimo com aquilo a que se assiste na Europa e em Portugal. A história dos amigos indianos, da família Filipina, do Zaman do Paquistão, da Maria Fernanda da Colômbia ou do Solomon de Inglaterra. A história dos imigrantes que representam mais de 30% da população da Austrália e que fazem a economia funcionar e avançar. Salvo raros clusters, não há grandes histórias de abusos do sistema, criminalidade, marginalização ou dificuldades de integração. E a receita para a assimilação não podia ser mais simples: dignidade.
Condições dignas que permitam a todos, nativos e forasteiros, construir uma vida onde possam desfrutar do quotidiano e não apenas ajudar a família nos seus países de origem. Que lhes permita viver numa boa casa, abrir o seu próprio negócio, desfrutar de um brunch num sítio agradável ou, pura e simplesmente, pagar um almoço mais caro a um amigo que veio de longe. Na Austrália, à falta de mão-de-obra, empregam-se imigrantes com condições comparáveis às dos Australianos. Na Europa, aproveitamo-nos do desconhecimento e susceptibilidade dessas pessoas para esmagar salários, comprimir custos e engordar margens. Restringimo-los a uma vida ingrata de casa-trabalho e trabalho-casa, e depois acusámo-los de não se integrarem.
Há algo de exótico num país onde o turista que vem de fora tem provavelmente um nível de vida inferior ao do imigrante que para lá foi trabalhar. Sinto isso na pele, e lembro-me sempre de um amigo próximo que é louco pelo Sudeste Asiático. Não necessariamente pelas praias, pela cultura ou pelas pessoas, mas sim pelo custo de vida baixo que lhe permite ficar em bons hotéis, andar de táxi sempre que quer ou sentar-se em qualquer restaurante sem ter que olhar primeiro para os preços do menu. Mas de que serve viver nessa bolha se olhares em teu redor e o nível de vida oscilar entre o mau e o miserável?

Jim Jefferies, comediante que muito aprecio e que se tornou viral há uns anos à conta de um bit que gozava com os defensores mais fervorosos das Segunda Emenda nos EUA, disse que, enquanto sociedade, temos que caminhar ao mesmo ritmo do mais lento do grupo para que as coisas possam avançar. Referia-se ao porte de armas e à ilegalidade de conduzir embriagado, mas a verdade é que este conselho se pode aplicar a toda e qualquer vertente para quem queira construir uma sociedade funcional, justa, solidária e equilibrada. Por coincidência, Jefferies é Australiano. Ou talvez a coincidência não seja assim tão grande.
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